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Promessa de um novo hospital em Vila Franca de Xira tem duas décadas - “Um remendo” sem fim à vista
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Há mais de duas décadas que se fala do novo hospital de Vila Franca de Xira. Promessas, intenções, parcerias e concursos. Pura realidade virtual, uma vez que, nas decrépitas e encalhadas instalações do Hospital de Reynaldo dos Santos, vive-se um mundo de dificuldades para médicos e doentes.
Uma delegação do Conselho Regional do Sul (CRS) da Ordem dos Médicos visitou o Hospital de Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, no dia 3 de Fevereiro. A presidente, Isabel Caixeiro, falou com médicos que trabalham em “condições terríveis”, que enfrentam problemas de escassez das equipas e da relação com novos colegas que são incluídos a partir das famigeradas empresas de fornecimento de pessoal médico.
Os médicos contactados na visita, e nos diversos serviços onde esteve a delegação do CRS, são unânimes: as condições de que dispõe são precárias e o novo hospital é uma verdadeira necessidade. Mas de promessa em promessa e de lançamentos de concursos tem ficado muito pouco. E agora, com a frieza com que o Governo olha as parcerias público-privado, é bem provável que não esteja ainda próximo o momento em que o novo hospital será realidade.
No sítio oficial do Hospital de Reynaldo dos Santos, sobre o novo hospital, está publicada uma notícia que remonta a 2005. É a seguinte: “A 19 de Setembro de 2005, pelas 15 horas, teve lugar, no Salão Nobre do Ministério das Finanças e da Administração Pública, em Lisboa, a assinatura do despacho conjunto dos Ministros das Finanças e da Saúde para o lançamento do Novo Hospital de Vila Franca de Xira”. A notícia refere-se à autorização do lançamento do concurso para construção e gestão do futuro hospital em regime de parceria público-privado. É esta a informação oficial mais esperançosa a que se pode aceder no sítio www.hvfxira.min-saude.pt.
Mas a verdade é que muitos dos médicos que hoje ali trabalham “foram atraídos por isso”, disse uma médica, referindo-se às sucessivas promessas de novas instalações, algumas delas com mais de vinte anos. Entretanto, em dois edifícios que são propriedade da Santa Casa da Misericórdia local e que resultam de obras que se repartiram por várias fases (em 1951, 1983 e 1998), vai funcionando uma unidade de saúde hospitalar a que é exigida cada vez maior capacidade de resposta. Na visita, um dos médicos sintetizou tudo com um desabafo: “Este hospital é um remendo permanente e continuamos à espera do novo, mas não se sabe quando terminará o concurso”.
Urgências perderam com saída dos MF
Mas há outros problemas com que se debatem os médicos do Hospital de Reynaldo dos Santos. Com a escassez crescente de médicos, as medidas do novo modelo de gestão hospitalar e a falta de atractividade sobre os mais jovens, a administração tem recorrido por sistema à contratação de médicos externos, que
ganham à hora, ao serviço de empresas.
Esta nova realidade, se por um lado completa o número de médicos que tantas vezes faltam nas equipas de urgência, cria problemas vários de qualidade do serviço.
No caso da urgência de Pediatria, como referiu uma das médicas presentes, “as equipas são completadas pelo fornecimento de uma empresa e uns dias são uns médicos, outros dias são outros”, o que provoca várias dificuldades, quer ao nível do trabalho em equipa e da comunicação com os doentes – a maioria destes médicos não são portugueses –, quer ao nível da prestação, uma vez que, segundo os pediatras do hospital, alguns deles não têm as competências necessárias. Isabel Caixeiro, a este propósito, pediu a todos que “denunciem os casos de médicos que não têm as condições exigíveis”, uma vez que a Ordem tem definidos os mínimos que cada equipa de urgência deve ter.
A contratação de médicos à hora é também o resultado dos novos modelos de gestão. Até há algum tempo, os médicos de família (MF) que eram contratados para as equipas reparavam muitos dos problemas. Uma pediatra lamenta “que já não haja médicos de família a fazer urgências, porque nesse tempo criava-se uma relação de maior proximidade com os doentes”, apesar disso, “infelizmente foram substituídos por médicos das empresas”.
De todos os especialistas em MGF que completavam a equipa de urgência pediátrica resta agora uma médica, que no dia da visita estava ao serviço. É ela própria que diz: “É muito bom virmos aqui!”. A especialista refere-se às vantagens que a equipa tem na presença dela e também aos ganhos que têm os médicos de família nos seus centros de saúde. Isabel Caixeiro, também ela médica de família, admite que é difícil compreender porque terminou “esta prática que era vantajosa para todos”.
Cardiologia debate-se com falta de internos
O Hospital de Reynaldo dos Santos vai, ainda assim, conseguindo bater-se pela qualidade. A Cardiologia é um desses serviços, apesar de ter “uma enfermaria com cinco camas e estar tudo atravancado”, como disse o director, Carlos Rabaçal.
Um dos problemas, neste caso, é a atracção de internos. Por enquanto, o serviço não tem ideoneidade formativa total e o único interno que está integrado na equipa reparte a sua formação por Vila Franca de Xira e pelo Hospital de Curry Cabral, com o qual está estabelecida “uma parceria para a idoneidade formativa”, como disse Carlos Rabaçal, embora isso não tenha permitido por agora a atribuição de vagas em número satisfatório.
A presidente do CRS elogia o esforço dos colegas e sublinha que “há serviços com todas as condições, mas que não funcionam”. Quanto à questão da atribuição de vagas, Isabel Caixeiro aponta responsabilidades para a Administração Central dos Serviços de Saúde (ACSS), onde, lamenta, “as pessoas não fazem ideia do que é a formação médica”. Nessa altura relatou ao médicos presentes os episódios caricatos que tem tido nos contactos com a ACSS, em que já teve que explicar o processo de formação médica durante toda uma reunião. O director do serviço, embora não desalentado perante tantas dificuldades, considera mesmo que “este hospital não deveria ter Cardiologia, pois é um serviço que tem sido visto sempre um pouco de lado”.
A visita da delegação do Conselho Regional do Sul ao Distrito Médico de Santarém, depois de ter estado no Hospital de Reynaldo dos Santos, onde terminou no Serviço de Cirurgia (vera caixa), prosseguiu na Unidade de Saúde Familiar de Pontével e fechou com uma reunião na sede de Santarém, com a presença de dirigentes regionais e distritais, de que daremos conta na próxima edição.
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