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Discurso de Isabel Caixeiro na Cerimónia
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A cerimónia de Juramento de Hipócrates dos novos médicos da área da Secção Regional do Sul foi este ano integrada no programa do Congresso Nacional de Medicina. No início da cerimónia, que decorreu no dia 19 de Fevereiro, no Centro de Congressos de Lisboa, a presidente do Conselho Regional do Sul fez um discurso de boas-vindas aos novos médicos, que
publicamos na íntegra
“Momento de vitalidade e esperança”
Saliento o momento particular e a satisfação de termos hoje connosco os Srs. Bastonários dos países da Comunidade Médica de Língua Portuguesa que vão testemunhar este acto solene.
As palavras que neste momento dirijo são destinadas, em particular, para os jovens colegas que hoje solenemente prestam o juramento de uma vida.
De uma vida especial e particular onde a razão e emoção preencherão muitos dos vossos dias. Dias bons e menos bons, alguns mesmo dramáticos e extenuantes, com frustrações várias.
É nesta vida que aprenderão, como cada um de nós vem aprendendo, o significado real e pleno do juramento que os mais jovens hoje assumem e os mais experientes reavivam: “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.
É este juramento milenar que une todos os médicos.
Esta fórmula, aparentemente simples, encerra o significado profundo do ser médico.
Sintetizamos nestas palavras valores que, para nós e para os doentes, são inultrapassáveis pelas conjunturas, pelas modas ou pelo politicamente correcto, ou, ainda, pelas crises e indefinições que ciclicamente abalam as sociedades.
Ancorado na firmeza deste propósito, cabe ao médico ser um esteio de confiança na sociedade, assegurando diariamente a confiança daqueles que nas suas mãos depositam receios, ambições, expectativas, alegrias, tristezas e, até, a sua vida.
Não têm sido boas as notícias mais recentes.
A evolução social nacional e internacional está suspensa nas incertezas económicas e de desenvolvimento.
Na saúde, aos riscos já conhecidos somam-se os abruptamente criados pelas debilidades económicas.
Sociedades com aumento de pobreza serão populações em risco, com carências de saúde e maior probabilidade de doença.
A globalização em que vivemos torna-nos permeáveis a novas (e antigas) ameaças em saúde e exigem-nos que, como médicos, sejamos capazes de ter respostas capazes, adequadas e, acima de tudo, actuantes também na minimização da ansiedade e fragilidade que se geram em momentos como estes.
Esta é também a responsabilidade que assumimos com o nosso juramento.
Não fazemos apenas uso das capacidades de aplicar o melhor conhecimento disponível para prevenir a doença e promover a saúde.
Enquanto médicos, estamos mobilizados e organizados para intervir na sociedade que nos rodeia na defesa da equidade na prestação
de cuidados de saúde e da dignidade da pessoa humana nas unidades de saúde, públicas ou privadas, centros de saúde, hospitais, consultórios ou unidades de cuidados continuados.
Acabados os estudos universitários, já foram confrontados com um novo conjunto de dificuldades e desafios a ultrapassar:
- As disfuncionalidades e incapacidades de resposta em relação aos processos de colocação no ano comum do internato médico.
- A injustiça de uma ausência de estratégia coerente nas políticas de recursos humanos na saúde, que oscila entre excesso e carência
de médicos, fruto do autismo reiterado de sucessivos governos em relação a estas matérias.
- Os sucessivos improvisos que, ano após ano, acumulam peripécias lamentáveis na prova de seriação de acesso às especialidades e nos mapas de vagas.
A Ordem dos Médicos tem repetidamente demonstrado a sua solidariedade para com os jovens médicos, e os que o desejam ser, que são defraudados pela tutela da saúde.
Embora não sejamos responsáveis pelo numerus clausus nem pelo mapa de vagas, temos manifestado a disponibilidade da Ordem dos Médicos para colaborar e dar parecer para a sua resolução.
Como médicos, há muito que vimos alertando para o risco de algumas convulsões (eufemisticamente denominadas de reformas)
que têm vindo a degradar o Serviço Nacional de Saúde.
Alterações centradas numa redução acrítica de custos, em cortes nos direitos dos doentes e medidas sem demonstração de eficácia ou racionalidade têm merecido a nossa crítica.
Terá sido, porventura, melhorada a engenharia numérica, modernizada a burocracia e, frequentemente, gerido mediaticamente o rumo da saúde no nosso país.
Com mais ou menos sociedades anónimas ou empresariais, maior ou menor inovação na gestão, maiores ou menores tentativas de
reduzir o acto médico a um número frio e inexpressivo, o que é facto é que continuam a ser os médicos o garante da saúde e o rosto de
confiança que os doentes vêem diariamente.
Está iniciado o debate sobre a evolução das Carreiras Médicas no nosso país, um pilar essencial para a sustentação de um Serviço
Nacional de Saúde.
As experiências dos contratos individuais de trabalho no SNS mostram já as iniquidades que geram, a incapacidade óbvia em assegurar um desenvolvimento profissional médico consolidado
pela diferenciação científica e a desestruturação do trabalho em equipa.
Das Carreiras Médicas dependerá, como dependeu no passado, a configuração futura dos cuidados de saúde do nosso país.
Dada a importância estruturante destas matérias, todos os médicos, a exemplo do projecto iniciado na década de 1960, são responsáveis pelo desenvolvimento das Carreiras Médicas. Elas são a alavanca
de modernidade e de inspiração profissional, ferramenta indispensável da qualificação médica e garantia de segurança e qualidade dos cuidados de saúde.
Continuaremos também a pugnar por um Acto Médico que seja o espelho do respeito pelas competências médicas e elemento clarificador das responsabilidades e intervenções em saúde.
Continuaremos a ser intransigentes na defesa da ética médica como direito inquestionável dos cidadãos e garante último da adequação dos cuidados prestados ao interesse dos doentes que servimos. A independência técnica crítica de cada médico não é negociável.
Em suma, “A Saúde do nosso doente será a nossa primeira preocupação”.
Termino com as boas notícias.
Acredito que as novas gerações de médicos, de que fazem parte a partir de hoje, irão mudar e melhorar o futuro da saúde no nosso país.
A criatividade e inconformismo de que são portadores, aliado ao saber e prática dos mais experientes, constituem o melhor seguro para um sistema de saúde orientado para as reais necessidades dos doentes.
Para todos nós, hoje assinala-se um momento de vitalidade e esperança.
Abraçam hoje a nossa causa 433 novos colegas, garantindo-nos a continuidade de valores e princípios que nos unem como médicos.
Para a Ordem dos Médicos é motivo de satisfação contar com cada um dos novos médicos e, para eles, direccionar os nossos esforços e apoio nos momentos necessários.
A Ordem dos Médicos pertence-vos de hoje em diante e, em cada dia, esperem dela aquilo que quiserem esperar de vós próprios.
A Ordem dos Médicos somos todos nós: médicos.
Da parte dos seus dirigentes, e em particular do Conselho Regional do Sul, que represento, contem com a disponibilidade e dedicação para os vossos/nossos desafios.
Da parte de todos os colegas médicos do país, e em nome dos mais 19.000 representados nesta Secção Regional do Sul, trago-vos o
empenho e disponibilidade em vos acolher e convosco partilhar os ensinamentos de experiência feitos.
Os jovens médicos de hoje são os novos porta-vozes de uma profissão que diariamente tem uma palavra a dizer a milhares de portugueses.
A todos os jovens médicos os votos renovados dos maiores sucessos pessoais e profissionais.
Contamos convosco.
Obrigada.
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