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Ano 2009 - Nº 157 - Quinzenal - 31 de Maio de 2009

  Editorial

Isabel Caixeiro
Números – o eterno problema

Todos sabemos que o país se debate com um problema de iliteracia matemática, ou melhor de “inumerologia”.

Os piores resultados no ensino são sempre na área da matemática e, no entanto, tudo se decide em função dos números. A economia tomou conta dos nossos pensamentos e decisões quotidianas, ultrapassando a vertente humana de difícil contabilização numérica. Para os que aprenderam a cantilena da tabuada, como eu, acompanhada de alguma ajuda pelo “contar dos dedos” a realidade actual, afogada no “papão” da crise económica mundial, é um pouco assustadora. Mas ainda sabemos fazer contas! Ainda recentemente uma estimativa de um alto responsável do Ministério da Saúde apontava para meio milhão de portugueses sem Médico de Família, valor ainda muito alto quando se pretende igualdade de acesso a Cuidados de Saúde de qualidade para todos os cidadãos. Estranha a metodologia do cálculo. Aos cerca de 700 mil utentes sem MF que resultaram duma limpeza de ficheiros do tempo do Ministro Luís Filipe Pereira, retiram-se 200 mil, que teoricamente passaram a ter Médico de Família devido à criação de Unidades de Saúde Familiar. Digo teoricamente, porque para obter este número é preciso que cada médico que passou a integrar uma USF só tivesse 1.500 pacientes inscritos e passasse a ter 1.750. Multiplicando 250 pelo número de Médicos de Família aderentes ao novo modelo de organização dos CSP, daria aproximadamente 200 mil pacientes cobertos de novo. Estas “contas por alto” parecem fáceis de fazer, mesmo sem calculadora. Mas sabemos que esta não é a realidade. Muitos Médicos de Família já tinham muito mais cidadãos inscritos no seu ficheiro, às vezes mesmo mais de 2.000. Alguns deixaram mesmo a descoberto as suas listas anteriores ao mudarem para outros locais para integrarem USF’s. A ARS do Norte no seu site indica 416.833 utentes sem Médico de Família, no final de 2008, e é a região com mais USF a funcionar. E o resto do país? Só tem pouco mais do que 83 mil? Infelizmente não vimos ainda qualquer estudo que mostrasse a realidade dos números. Os únicos que têm sido encomendados, avaliam apenas a satisfação dos utilizadores e profissionais integrados neste novo modelo. Naturalmente os resultados são positivos. A capacidade de auto organização e gestão do trabalho pelos próprios profissionais, baseadas no conhecimento da realidade, uma filosofia de resolver problemas, o trabalho em equipa, levam forçosamente a maior motivação e melhoria no atendimento e acesso de quem procura os Cuidados. E os que ficaram sem médico, em que parcela entram? A matemática continua a ser um problema, mesmo para os políticos.

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