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Ano 2008 - Nº 141-142 - Quinzenal - 29 de Fevereiro de 2008

  Editorial

Isabel Caixeiro
Incentivos

No dicionário, incentivo é sinónimo de estímulo.
Nos manuais de gestão é qualquer coisa que encoraja um empregado a trabalhar mais e a ser mais produtivo.
De incentivos, muito se tem ouvido falar recentemente, mas exclusivamente na sua vertente financeira.

No dicionário, incentivo é sinónimo de estímulo.
Nos manuais de gestão é qualquer coisa que encoraja um empregado a trabalhar mais e a ser mais produtivo.
De incentivos, muito se tem ouvido falar recentemente, mas exclusivamente na sua vertente financeira.
Uns recebem montantes imorais, sem nada fazer, confortavelmente instalados num gabinete de coordenação. Já outros, trabalham “por amor à camisola” em mais um desafio pela sobrevivência do modelo de MGF em que acreditam, enquanto os incentivos prometidos tardam a chegar. Outros ainda, aceitam ser responsáveis pela orientação da formação dos jovens médicos que serão os especialistas do futuro, sem qualquer tipo de retribuição, enquanto as administrações de alguns hospitais EPE consideram os internos como empecilhos para os resultados da sua “linha de produção”.
Atendendo às circunstâncias, conclui-se que a palavra incentivo só pode ser compreendida com o recurso a uma semântica complexa. Afinal que significado tem incentivo e a que exactas condições se associa o termo? Isto é, será que incentivo é uma palavra cujo significado diverge consoante o ponto de vista? Provavelmente assim é, mas não se deveria desmotivar quem “corre por gosto”.
Há contudo uma certeza: um incentivo serve justamente para incentivar, isto é, motivar, estimular para que se trabalhe mais e com melhor qualidade. Disso não restam dúvidas. Onde reside o problema é na escolha do tipo de incentivos, de quem os deve receber e em que circunstâncias.
Aplicado à nossa actividade de médicos, faz sentido a criação de um modelo de incentivos, dada a exigência da profissão e o desgaste agravado pelo contexto em que trabalhamos, muitas vezes em condições precárias e de sobrecarga, por vezes até, sem recursos para uma prática médica de qualidade.
O modelo deve ser claro, justo, premiando o cumprimento de objectivos e que tenha em conta a qualidade da prática médica e a ética.

De acordo com Abraham Maslow – um psicólogo americano que estudou profundamente a motivação e a personalidade –, há uma hierarquização de necessidades. Segundo a teoria que desenvolveu nos meados do século passado, para que se dê mais um passo na motivação é necessário que as pessoas vejam satisfeitas, no todo ou em boa parte, as condições de que precisam a cada passo. Isto é, não é possível subir nessa escala de necessidades sem que a de ordem inferior esteja relativamente satisfeita.
Ora, aplicada esta teoria ao que se passa hoje na área dos cuidados de saúde primários, que tipo de incentivos é que pode motivar médicos que não têm, em muitos casos, as condições básicas para a sua prática clínica? Como sabemos, são inúmeros os centros de saúde sem condições, quer ao nível das instalações quer quanto à dotação em recursos técnicos e humanos. De resto, cavam-se ainda mais, com as recentes políticas, as desigualdades entre os médicos, que vêem, ainda por cima, os seus doentes a serem também tratados de forma diferente, consoante estejam numa USF ou num CS tradicional.

O caso do pagamento de incentivos aos médicos e outros profissionais envolvidos na criação das unidades de saúde familiar, que ainda não se concretizou, também não ajuda a manter a motivação. Para já não falar das listas de utentes que ficam a descoberto quando um médico deixa o seu centro de saúde de origem para integrar uma USF noutro local, sobrecarregando ainda mais os colegas que restam nesse CS.

De acordo com Maslow, como será possível motivar para uma nova necessidade os médicos que ainda não sentem a sua necessidade inferior realizada? Provavelmente, não será.
Por outro lado, é reconhecido que nem sempre os incentivos que assentam num modelo remuneratório melhorado, por si só, sejam os mais eficazes, embora seja legítimo que a mais e melhor trabalho corresponda um melhor vencimento.
Vejamos o caso dos médicos que desde Janeiro têm vindo a tomar posse como dirigentes da Ordem neste novo triénio. São equipas sem remuneração e cuja motivação é a de trabalhar com o objectivo de garantir que os valores da Medicina perdurem e que os médicos possam desenvolver a sua actividade num SNS cada vez mais eficiente e que possam oferecer aos seus concidadãos os tratamentos mais adequados de acordo com a leges artis.
Estes nossos colegas, nas secções regionais e nos distritos médicos de todo o país, são médicos motivados e entusiastas. É um modelo de realização que não assenta em incentivos monetários, mas que funciona e é de sublinhar, que mais não seja como exemplo para o poder político, que tantas vezes descura as nossas necessidades, para propor logo a seguir a miragem de um novo passo.
Acreditamos que a nova titular da pasta da Saúde, a nossa colega Ana Jorge, pelo conhecimento que tem da realidade da Saúde, poderá ser um incentivo para todos nós.

Isabel Caixeiro

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