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Ano 7 - Nº 123/124 - Quinzenal - 31 de Janeiro de 2007

  Entrevistas

Foram a sabedoria, as crenças e as histórias dos trabalhadores rurais que ensinaram Maria das Dores Borges de Sousa a «saber olhar»

Maria das Dores Borges de Sousa fala sobre a sua arte


“A técnica não importa, mas sim os sentimentos que consigo obter através da aguarela”

“A aguarela permite criar tonalidades
mais suaves e transparentes”

Maria das Dores Borges de Sousa, pediatra, nascida na Moita, cedo se habituou a contemplar e estudar as cores que brotavam dos quadros de duas tias que se dedicavam à pintura. Foi pois por influência familiar que enveredou pela pintura de aguarelas, que considera ser a técnica mais fácil. Paralelamente, dedicou-se à escrita com o livro «A Moita – Memórias de uma época», fruto das impressões trocadas com os habitantes mais idosos, ou seja, sentiu o mundo pela sabedoria dos rurais


Medi.com – Os seus interesses, para além da Medicina (Pediatria), são a música e “brincar com as cores de aguarelas”. De que resultaram estas motivações -- influência familiar ou apetência natural para estes dois campos da Arte?

Maria das Dores Borges de Sousa -- Nasci e vivi numa casa, que ainda hoje preservamos, onde quadros a óleo e aguarelas executados por duas tias me levaram a ficar horas a contemplá-las e a estudar intimamente a sua forma e cores. Já adulta, vivi uma situação que me obrigou a ficar imobilizada durante dois meses e daí resultou uma diminuição da minha motricidade física. Comecei a fazer a minha recuperação através do desenho e depois procurando a delicadeza dos pincéis descobrindo como era capaz de reproduzir no papel as minhas vivências e aquilo que amava. Iniciei assim uma vida paralela ao exercício da Pediatria.
Quanto à música, a minha mãe tocava piano lindamente e em casa havia, e há, um belo piano que eu venerava. Daí, iniciei o meu gosto pela música, não como executante, mas como apreciadora. Depois foi só cultivar esse gosto.

M.com – Que tipo de ensinamentos técnicos teve na área da música?

MDBS -- Como disse não sou executante mas sou atenta apreciadora, frequentando concertos e associando melodias que me encantavam.

Lição sobre técnica

M.com – E na aguarela?

MDBS -- Na aguarela foi-me mais fácil. Numa visita ao museu de Bruges, na Bélgica, foi-me dado assistir a uma lição sobre a técnica das transparências na pintura e depois procurando conhecer os museus não só portugueses, como os da Europa, de Nova Iorque, e até o Hermitage.

Ensaio citado

M.com – Entretanto, surgiu o interesse pela escrita, mais concretamente pelo ensaio com o livro «A Moita – Memórias de uma época», que foi ilustrado por si, reconhecendo contudo que a Moita, sua terra natal, “tem uma longa história que ainda não foi escrita”. Não está nos seus projectos fazer essa mesma história?

MDBS -- Há um aspecto curioso nesse livro. O seu aparecimento desencadeou um interesse por esse aspecto e, entretanto, várias pessoas ligadas à cultura foram pesquisando, criando entusiasmo e já surgiram alguns livros com grande interesse, feitos de pesquisa na Torre do Tombo, pesquisas arqueológicas, etc., com descobertas muito interessantes. Nalguns venho citada como impulsionadora desse entusiasmo.

Pesquisa directa

M.com – Nesse livro de ensaios diz que alguns dos factos ali relatados “foram coligidos de tradução oral”. Como é que fez essa pesquisa e que filosofia adoptou para recolher e seleccionar os mesmos?

MDBS -- Sempre tive muita admiração pelas pessoas de idade que possuem um património riquíssimo na sua memória. Já há alguns anos fui-me apercebendo que rapidamente iriam desaparecendo e, como tal, seria importante trocar impressões com elas. Fui entrevistando familiares idosos, pessoas amigas, escutando e tomando notas de tudo o que me diziam. E, hoje, tenho um património de notas escritas e depois ordenadas por ordem cronológica a que vou acrescentando tudo o que possa caber nesse contexto.
Nele há contos antigos, memórias de acontecimentos fantásticos, ligações às estações do ano e às várias épocas da história. Ainda não acabou.

Ver o mundo com a sabedoria dos rurais

M.com – Nas páginas desse livro relata uma traquinice que resultou da aventura de tentar atravessar um charco fundo, quando foi traída pela oscilação da pedra onde se apoiou, mergulhando corpo e alma nas águas profundas. Que recordações da juventude mais a marcaram?

MDBS -- Penso que o que mais me marcou foi o carinho que sempre me rodeou. Tive um pai que me sabia ouvir e que pelo seu exemplo me transmitia valores que sempre me acompanharam. Soube incutir-me auto-estima sem que qualquer sinal de superioridade me acompanhasse.
E a minha vida foi decorrendo serenamente, primeiro vivida entre uma quinta e a casa da Moita.
O contacto com os trabalhadores rurais que lá trabalhavam, com a sua sabedoria, crenças e histórias, ajudou a desenvolver a minha capacidade de “saber olhar”, e tudo me deslumbrava. Ensinaram-me a não ter medo e a olhar sempre em frente e tentar resolver o que poderia parecer sem solução. O contacto com os animais, sobretudo os cães, desenvolvera-me o amor e respeito por esses nossos grandes amigos. As brincadeiras com o meu irmão ajudaram-me igualmente a desenvolver a minha curiosidade por tudo, bem como a crescer intelectualmente.

Paisagens rurais com vida

M.com – No texto «O Campo», inserto no livro «A Moita – Memória de uma época», descreve-nos uma paisagem bucólica e colorida que mais parece um quadro do Renascimento. Foi aqui que lhe surgiu o gosto pela pintura?

MDBS - Também foi. Todos os dias via paisagens rurais, com vida, e ficava a olhar os claros-escuros, as sombras dos beirais dos telhados, a brancura das casas com as suas barras azuis, as cores do Outono ou da Primavera e tudo me entusiasmava.
Os sons dos altos eucaliptos, o odor dos pinheiros, o aroma da terra molhada depois da chuva, o coaxar das rãs, tudo me encantava. E queria agarrar tudo aquilo, ficar presa para sempre àquele encantamento.

A técnica não importa

M.com – A sua obra pictórica é toda ela marcada pela aguarela e pela ilustração, como foi o caso do ensaio sobre a Moita. Por que é que escolheu a aguarela, uma vez que esta é a técnica mais difícil, em detrimento por exemplo do que permite pintar e repintar, enquanto a aguarela é definitiva?

MDBS -- Sempre gostei dos caminhos mais difíceis. A aguarela permite criar tonalidades mais suaves, mais transparentes, mais leves. O céu, o pôr-do-sol, a água têm outro sabor. Já reparou que não pinto figura humana ou animal. São aquelas minhas gaivotas que me dizem “és livre”! A técnica não importa, importam sim, os sentimentos que consigo obter através da aguarela.

Sentido de autocrítica

M.com – Tem participado em várias exposições colectivas, quer em galerias, hospitais, livrarias e hotéis. Quando é que se “atreve” a fazer uma exposição individual, especialmente agora que se encontra menos ocupada?

MDBS -- Tenho tido vários convites para uma exposição individual. Penso que uma certa timidez e sentido de autocrítica me têm levado a não aceitar. Talvez um dia o faça.

O pedido de um amigo especial

M.com – Uma das suas obras, que está patente na Biblioteca Prof. Rolando Moisão, da Ordem dos Médicos, retrata um barco no rio Tejo. Esta foi uma homenagem ao criador daquela biblioteca, que era um amante do mar, o que de resto ficou expresso em quase toda a sua obra literária?

MDBS -- O meu querido amigo Professor Rolando Moisão um dia disse-me que precisava de um quadro pintado por uma senhora, pois todos os quadros e obras lá existentes eram de homens. Para mim foi uma grande honra, levei vários para ele escolher, mas apaixonou-se por aquele à primeira vista. Eu penso que sim, que o Professor projectava muitas das suas recordações naquelas águas por onde tinha velejado. E referiu-se a isso na sua obra “A Biblioteca Histórica da Ordem dos Médicos”.

A partilha com os amigos

M.com – Uma vez que só tem participado em exposições colectivas, sempre em ambientes restritos, com quem é que partilha a sua obra?

MDBS - Partilho sobretudo com os meus amigos. Pedem-me para fazer uma aguarela temática para determinado evento, um colega pediu-me para ilustrar a capa dos seus livros, ofereço algumas a quem sei que a sabe entender ou onde vivências comuns nos levam a entender a minha linguagem. Fiz um conjunto de aguarelas de uma quinta em Elvas, que foram posteriormente levadas ao Congresso Mundial dos Médicos Escritores (UMEM) em Isernia, na Itália.

M.com – Tem sido desde sempre uma das sócias mais activas da SOPEAM de que actualmente é secretária-geral. Acha que esta sociedade médica reflecte o panorama da arte e da escrita dos médicos portugueses, ou haverá algo mais que fazer para que tenha a projecção que merece, a avaliar pelo elevado nível cultural dos seus sócios?

MDBS -- A SOPEAM tem feito um trabalho de grande qualidade mas desejamos sempre mais, deste modo, estamos abertos a novas iniciativas e a outros médicos que desejem divulgar a sua obra. Temos sempre muito gosto em descobrir novos talentos.

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