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Ano 7 - Nº 125/126 - Quinzenal - 28 de Fevereiro de 2007

  Entrevistas


Martins dos Santos fala dos médicos a propósito do III Congresso de Medicina do Algarve

Os médicos do Conselho Distrital do Algarve, a que preside Martins dos Santos, vão debater, nos dias 4 e 5 de Maio, o «Presente e Futuro da Medicina no Algarve». É mais uma das muitas iniciativas deste órgão que visa abordar o “sentimento de desilusão e de frustração por parte dos médicos” relativamente às condições cada vez mais exíguas para o adequado exercício da Medicina naquela região do País


Há um “sentimento de desilusão e de frustração”

Medi.com – O Conselho Distrital do Algarve vai realizar, nos dias 4 e 5 de Maio, o III Congresso Medicina no Algarve subordinado ao tema «Presente e Futuro da Medicina no Algarve». Os médicos do Algarve estão preocupados com o estado actual da situação?
Martins dos Santos – Actualmente, assiste-se, quer a nível nacional, quer a nível do Algarve, a uma multiplicidade de potenciais alterações na Saúde que irão, indiscutivelmente, repercutir-se na Medicina. Este frenesim psicadélico com que os responsáveis da Saúde nos brindam, de forma insistente e iterativa, leva-nos a pensar que poderão estar subjacentes conteúdos motivacionais pouco adequados para os médicos e mesmo contra-indicados para quem está no papel de doente.
Por outro lado, existem necessidades e problemas que continuam a aguardar solução, uns crónicos e já bastante escalpelizados, outros agudos e que urge solucionar.
Não vemos, de forma clara e inequívoca, vontade de os resolver por parte de quem detém essa responsabilidade e esse dever. É nesse contexto que consideramos indispensável que os médicos do Algarve discutam estes assuntos e que, através do conhecimento privilegiado que detêm, possamos todos chegar a consensos ou, pelo menos, de forma construtiva, a propostas modificadoras.
Medi.com -- E na região o que se passa com a prática médica?
MS -- No que respeita, em concreto, à prática médica no Algarve, será importante aferirmos o que se passa em algumas instituições de saúde e em determinadas especialidades, designadamente que condições têm os médicos para desenvolver a praxis médica, que repercussões são expectáveis para os médicos e para os doentes. Ficando desde já muito claro que seremos intransigentes relativamente a dois aspectos que são inquestionáveis: a definição dos níveis assistenciais médicos compete exclusivamente à Ordem dos Médicos, bem como a avaliação do seu cumprimento pelas instituições de saúde. Neste sentido, iremos dedicar algum tempo à organização dos cuidados de Saúde, particularizando a gestão de Saúde e a gestão em Medicina, no intuito de perspectivarmos o futuro.
Será dada ênfase à Medicina como profissão de risco e serão divulgados e apresentados os resultados de um estudo, que estamos a realizar, sobre burnout médico.

Tentativas de manipulação

Medi.com – Que outras áreas serão abordadas no Congresso?
MS - Outra área de relevo que queremos abordar reporta-se à responsabilidade médica e às ingerências e tentativas de manipulação da relação entre médico e doente.
Pretendemos introduzir, simultaneamente, alguns assuntos pertinentes, quer pela sua projecção e interferência na vida diária do médico, quer pelo seu alcance e proeminência na praxis médica, refiro-me às direcções médicas, desde as direcções dos serviços às direcções clínicas, desde a sua importância na gestão da Medicina às limitações impostas na gestão da Saúde. Porque sem uma direcção médica robusta (e não podemos esquecer que os seus alicerces, os seus sustentáculos, são constituídos por todo o corpo médico), actuante e independente dos interesses políticos, a sustentabilidade profissional dos médicos será posta em causa.
Medi.com – Face às actuais condições para o desempenho da profissão, o Algarve ressente-se?
MS – No Algarve, provavelmente à semelhança de outras zonas do país, existem situações de acentuado desequilíbrio entre aquilo que são as necessidades da população e a capacidade de resposta, quer dos centros de saúde quer dos hospitais. No entanto, aqui, a situação está constantemente ampliada mercê dos fluxos populacionais que em determinadas alturas a transformam na região mais populosa do país.
Perante uma situação destas seria de esperar que a sensibilidade de quem gere a Saúde fosse mais dedicada e que de forma preventiva possibilitasse a atracção de especialistas para a região, ou pelo menos não fomentasse a sua saída do SNS, por via de atitudes menos consentâneas. Infelizmente, assistimos nos últimos tempos exactamente ao oposto, redução do número de especialistas em 50% em determinados serviços, ou chegando ao extremo de o serviço ficar reduzido a um especialista, quando antes tinha seis. É o privilegiar a gestão da Saúde, por razões declaradamente numéricas e economicistas, em detrimento da gestão da Medicina.

Desilusão e frustração

Medi.com – Teme que isso esteja a produzir efeitos negativos?
MS - Intensifica-se e é notório um sentimento de desilusão e de frustração por parte dos médicos relativamente às condições cada vez mais exíguas para o adequado exercício da Medicina, o que se repercute inevitavelmente e de forma negativa nos níveis de motivação. Fica patente que, desta forma, o exercício da Medicina está substancialmente comprometido com indiscutíveis prejuízos para os doentes, mas também para os médicos.

Medi.com – O Algarve debate-se todos os anos com os problemas resultantes de um grande afluxo de pessoas. O facto de incluir este tema nos debates significa que há muitos desses problemas que ainda não foram resolvidos?
MS – Como já referi, e entrando também na área da Saúde Pública, os fluxos populacionais para a região, onde é também de salientar o papel dos imigrantes pelo peso relativo e respectiva importância na procura de cuidados de saúde primários e de cuidados hospitalares, dificultam o planeamento criterioso da prestação de cuidados de saúde, quando ele existe. Quando não existe planeamento, os problemas eternizam-se e não mais se resolvem, pela simples razão de que não se aprende com os erros.

Novas dinâmicas e outras atitudes

Medi.com – Vão ser ainda abordadas outras questões, como sejam a avaliação do estado da Saúde – caracterização dos problemas e propostas de solução, bem como Saúde Pública, Cuidados Primários e Cuidados Hospitalares. Está prevista a participação de alguém ligado ao Governo?
MS - Pensamos que os temas que irão ser discutidos sustentam uma abrangência e um interesse avultados, especialmente na perspectiva de projectar novas dinâmicas e outras atitudes, mas sobretudo visando a promoção da Medicina, indispensável para que se possa conscientemente promover a Saúde da população. Portanto, é nosso entendimento que será fundamental a participação de entidades governamentais.

Medi.com – Uma vez que vai ser abordada a formação médica no Algarve, pode caracterizar em que estado é que se encontra esta importante vertente?
MS – A área da formação médica é reconhecidamente uma área em que se constatam algumas lacunas. Tendo consciência disso, tentámos contribuir para as minimizar, promovendo cursos na sede, em Faro e na Universidade do Algarve, ao abrigo de um protocolo existente entre a Ordem dos Médicos do Algarve e a Universidade do Algarve.

Disponibilidade permanente do CRS

M.com – E como têm sido as relações com o Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos?
MS – Desde sempre que o relacionamento com o Conselho Regional do Sul tem sido um relacionamento privilegiado, que se tem pautado por um adequado entendimento recíproco das questões referentes à Região Sul e ao nosso Distrito. Para além da cordialidade, é justo referir a disponibilidade sempre demonstrada pelo CRS relativamente às nossas solicitações.

Balanço positivo

Medi.com – O Conselho Distrital do Algarve, que está sob a sua presidência, termina o seu mandato no final deste ano. Que balanço faz da sua actividade?
MS – Nesta fase, e analisando todo o percurso da Ordem dos Médicos do Algarve, não posso deixar de fazer um balanço positivo, mas todos nós gostaríamos que tivesse sido possível fazer ainda mais, porque só se sente satisfeito quem se acomoda e esse não é o nosso espírito.
Dou-lhe alguns exemplos do nosso contributo à frente da Ordem dos Médicos do Algarve: revitalizámos o Boletim da OM do Algarve, contamos terminar o nosso mandato duplicando o número de edições que existiam; desenvolvemos o protocolo com a Universidade do Algarve através da realização de vários cursos na sede em Faro; em parceria com a Universidade do Algarve e por nossa iniciativa, foi criado um curso de pós-graduação em Gestão de Saúde, com acesso à respectiva Competência da OM e com acesso sequencial para Mestrado em Gestão de Saúde, que se iniciou em Novembro/2006, evitando que os médicos do Algarve tivessem que se deslocar a Lisboa para esse fim, com todos os inconvenientes que estão subjacentes a essa deslocação periódica; reestruturação, remodelação e melhoramentos das instalações da sede de Faro; criação de rede sem fios com acesso à internet nas nossas instalações e melhoria dos meios informáticos; reuniões para debate e esclarecimento de assuntos prementes, bem como reuniões temáticas; o nosso projecto da Casa do Médico continua como uma prioridade da OM do Algarve e temos, finalmente, algumas propostas concretas para deliberação; implementação e desenvolvimento do Gabinete do Doente da OM do Algarve em articulação com a Secção Regional do Sul.
O distrito Médico do Algarve participou também em reuniões nacionais e internacionais, em representação do sr. Bastonário e da sr.ª Presidente do CRS, designadamente no III European Medical Student Council Meeting (Jan. 2006 – Albufeira), em que foram discutidos, com intervenção do Conselho Distrital temas como «Tratado de Bolonha - Requisitos mínimos para o exercício da Medicina na Europa». Participámos também no I Encontro Luso-Andaluz, em Sevilha (durante este mês de Fevereiro), onde foi assinado um protocolo de colaboração entre a Ordem dos Médicos, representada pelo sr. Bastonário, e o Presidente do Real e Ilustre Colegio Oficial de Medicos de Sevilla e do Consejo Andaluz de Colegios de Medicos.

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