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Elogiado lá fora e pouco acarinhado cá dentro
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Adelino Ângelo
Ignorado em Portugal pelos principais divulgadores da arte, Adelino Ângelo, heterónimo artístico de Leite de Faria de Lemos Magalhães e Meneses, aventurou-se a apresentar a sua obra no estrangeiro, o que lhe valeu rasgados elogios, entre os quais o de Pierre Lazzareff, director do France Soir, que o considerou tão luminoso como Caravaggio.
Numa carreira que já ultrapassa meio século, Adelino Ângelo é natural de Vieira do Minho, onde vai ser instalado um museu com o seu nome, no Solar de Lamas. Trata-se de um dos mais puros pintores da Europa, acima de tudo um humanista, que denuncia as tragédias do nosso tempo e que recentemente expôs na Galeria da Ordem dos Médicos.
A vida nómada dos ciganos e o drama dos loucos que trata nos seus quadros fazem dele uma espécie de psicanalista da pintura, como o próprio se considera.
Medi.com - Como é que se sente quando comparam a sua pintura à de Malhoa, Abel Manta, Columbano, Medina, Goya, Velásquez, Eduardo Malta entre outros?
Adelino Ângelo - Adelino Ângelo apareceu ao mundo por obra do Espírito Santo. Eu sou o grande revolucionário do figurativo, ou seja, o criador. Eu não sou o reprodutor. A minha obra está lá para as pessoas verem e fazerem a leitura, isto é dito por homens e críticos de arte conhecidos em todo o mundo, que me consideram um criador e não um reprodutor. Uma espécie de Freud ao fazer a psicanálise do ser humano.
M.com – Acha que se parece muito com Goya?
AA - Valdeverde, director do Museu de Pontevedra e um grande historiador, disse-me que eu tinha ultrapassado o Sorrola na magia da luz.
M.com - Não acha excessiva a rotulagem que fazem da sua obra ao considerá-lo um dos maiores pintores do mundo?
AA - O julgamento da minha obra parece-me que já está feito, como o de psicanalista, considerado um dos mais puros e categorizados pintores de retratos da Europa. A partir daí eu criei ou recriei outras potencialidades, o impressionismo e o expressionismo, e tornei-me ao mesmo tempo um criador do figurativo.
Humanista impressionista
M.com - Não será mais impressionista?
AA - Eu sou essencialmente o humanista impressionista que retrata a vida em todas as suas vertentes, nomeadamente a pobreza, a desilusão, a loucura, a demência e o alheamento das pessoas perante a desgraça que lhes passa ao lado todos os dias e que connosco convive.
M.com - Como é que se sente ao ser reconhecido em quase todo o mundo e ostracizado pelas «capelinhas» da arte em Portugal?
AA - Já me perguntaram na televisão porque era considerado lá fora como um dos melhores pintores do mundo e em Portugal mal se falava do meu nome. Eu respondi que tinha saído da normalidade para ser um pintor anormal. Eu não ando a pintar casinhas, nem o mar, nem as ruazinhas para agradar às pessoas. Pintei a loucura do ser humano, os nómadas e a vida cigana, que é uma chamada de atenção ao mundo em que vivemos para o sofrimento conflituoso permanente.
Foi a partir daí que os estrangeiros viram a minha obra e me reconheceram como um dos maiores pintores do mundo. Mas não é só por isso: é que de facto eu crio, numa só personagem, num só ser humano, o louco, o semi-louco, o tarado, o imbecil e o alcoólico. Numa só figura sem desvirtuar a imagem. Ora essa leitura reflecte mais o psiquiatra ou o homem mais vocacionado para a psicanálise, o que não é difícil de descobrir na minha obra.
Pintor do desassossego
M.com - Houve alguém que o considerou o pintor do desassossego…
AA - Eu sou o desassossegado. Ao pintar estes conflitos do ser humano eu passei a ser o protagonista de uma obra dramática. É como se tivesse incarnado nesses seres humanos, vai daí que eu também tenho os meus conflitos internos ou dá-me a ideia que sou também um louco, normal, graças a Deus.
Para eu poder interpretar, tenho que me pôr no lugar deles, e com a experiência da vida que eu tenho ao ver essas reacções dos loucos em centros psiquiátricos e até pelas ruas, eu perpetuo essa psicanálise. O Barroso da Fonte considera-me um psicanalista universalista.
Portanto, eu não sou a pessoa, o homem com o dom da palavra para falar da minha obra. Eu sei interpretar a minha obra através do desenho, que é a trave mestra e a matriz da pintura.
Infelizmente, em Portugal, os responsáveis pela cultura ainda não se aperceberam que anda toda a gente a pintar sem ter escola e mais grave é que morrem sem saber desenhar.
Para transmitir os estados psicológicos do ser humano e penetrar-lhes na alma é preciso ser um extraordinário desenhador, ou a lápis ou a pincel, porque ao interpretar o misterioso do ser humano eu tenho que saber desenhar com o pincel.
M.com - E em termos de formação o que é que destaca?
AA - Eu tive o maior estatuário português, António de Azevedo, como professor, durante seis anos, que me ensinou a ver para eu poder amar a vida, ou seja, a natureza, a paisagem humana. O que é preciso é saber ver e saber amar.
Maltratado em Portugal
M.com – Por que é que resolveu expor no estrangeiro em detrimento de Portugal?
AA - O que deu origem a sair de Portugal foi o facto de concorrer às bienais internacionais no estrangeiro, que é uma coisa séria, e a minha obra para além de ser aceite é elogiada pelos melhores críticos de arte desses países, já não falando nos prémios que me foram atribuídos. Com as mesmas obras apresentava-me às melhores galerias do País e nunca estavam satisfeitos, sugerindo-me que levasse outras e mais outras e quase que me incitavam a pintar galos de Barcelos. Em determinada galeria chegaram a dizer-me que a minha obra seria exposta quando morresse, ou seja, para esses senhores eu não passava de um pintor provinciano, porque não pertencia aos lóbis já instituídos, o que de resto ainda hoje acontece, infelizmente, não para mim, mas para muitos jovens pintores que dificilmente conseguirão singrar nesta amálgama de capelinhas.
Face a este tipo de comportamentos, arranquei para Espanha e, abre a exposição no país vizinho, passados alguns minutos, o director do France Soir, Pierre Lazzareff, considerou-me um dos maiores génios da pintura em Portugal e um dos mais puros e categorizados pintores da Europa.
Face a estas apreciações e outras que seria exaustivo citar, eu mandava os jornais para Portugal, que foram sempre escondidos porque não lhes interessava dar o braço a torcer. Continuei a trabalhar e fui reconhecido como um dos maiores pintores do mundo dentro do figurativo, que é o que me diz mais porque esse género é que é tremendamente difícil.
Retrato de Bush
M.com - Mas antes desta fase, digamos de psicanálise, dedicou-se ao retrato, o que contraria a veia criativa que se lhe reconhece nas pinturas, especialmente da vida cigana…
AA - Também no retrato é preciso ser criador. É uma coisa séria! Fisionomia, anatomia, desenho rigoroso, tudo é necessário para estudar a pessoa, mas a par disso eu também criava, dava-lhe mais ou menos densidade para realçar determinados valores. No figurativo, eu pego numa pessoa e sou totalmente eu. Extravaso-me e faço então com carinho, e com toda a liberdade, o que é a tal loucura, o drama do ser humano, os tais conflitos internos.
M.com - É isso que verte nos quadros dos ciganos?
AA - Também existem paisagens ao lado dos ciganos, mas certamente não ligam nada à paisagem. Eu ponho às vezes uma personagem enquadrada numa paisagem para reforçar o carácter da personagem. Mas para mim a paisagem é secundária, não querendo com isto dizer que eu não tenha paisagens lindas, mas sempre gostei das coisas difíceis da vida.
M.Com - Vive em Espanha ou vive cá?
AA - Tenho casa em Madrid e no Brasil. Aqui moro em Ofir. Mas de Madrid eu vou rapidamente a Paris ou aos EUA. Por exemplo, até Julho, tenho de apresentar um retrato do presidente Bush e devo lá chegar já com o retrato para ele colocar na parede da Casa Branca. Tenho aqui várias personalidades que pintei, fiz cerca de 2 mil retratos por encomenda. Neste momento estou a pintar o filho do rei de Espanha.
“Toda a gente é cigana”
M.com - Utiliza a espátula?
AA - Não, não, só pincel.
M.com – Por que é que se interessou pelos ciganos?
AA - Porque também sou cigano. E estou convencido que toda a gente é cigana. Porque fui nómada desde pequenino. Fui criado pela minha avó, em Guimarães, e, de vila em vila, de cidade em cidade. Essa foi uma grande escola de vida, que me levou a ter consideração pelos ciganos, a ponto de me terem considerado o melhor intérprete mundial da vida cigana. Até tive alguns prémios.
M.com - Prefere pintar ao ar livre no confronto com aquilo que pretende retratar?
AA - Sim, sim. Eu não andei muito com os ciganos. Mas encontrava-os nas suas barraquinhas e era muito estimado por eles, ao ponto de pintar as suas mulheres até a amamentar as crianças. Jaime Ferreira, que era formado pela ESBA e muito exigente, escreveu no Comércio do Porto: “Adelino Ângelo, em Portugal, é o melhor intérprete da vida cigana”.
M.com - Teve formação nalguma escola de Belas Artes?
AA - Andei nas Belas Artes, em Lisboa, e fui professor durante dez anos. Mas arranquei para o impressionismo quando lidei com os maiores pintores da Itália e da França. Nos princípios da minha vida lancei modas em todo o mundo, eu via na rua as pessoas vestidas com aqueles desenhos que eu criava para a indústria de estamparia.
O que dizem os críticos
“Vós sois um pintor condenado a ser tão famoso como Tieppolo e tão luminoso como Caravaggio, o mágico da luz”
Pierre Lazzareff
Director do France Soir
“E com eles, Columbano, Almada Negreiros e Sousa Cardoso, Adelino Ângelo, felizmente ainda activo, em plena maturidade e com obra espalhada e considerada por meio mundo, incluindo Galiza, onde recentemente pintou um esplêndido retrato do presidente autonómico Manuel Fraga que expôs em Ourense (...)”
Francisco Pablos
Real Academia de Bellas Artes
“Impressionista chegado ao expressionismo, desenhando com facilidade assombrosa, capaz de captar um carácter em dois traços de lápis e de conseguir uma cena genérica com mais umas poucas pinceladas, com mancha nervosa e rotunda, desde a paleta quente e muito grata (…)”
Idem
Ibidem
“Com verdade intemporal dentro da melhor tradição, Adelino Ângelo é um dos grandes e autênticos pintores que hoje podemos admirar.”
Idem
Ibidem
“Mestre Adelino Ângelo é especialista em psicologia profunda e procura desde a superfície do subconsciente do ser humano até desmascará-lo, transferindo para a sua criação os traumas e feridas da vida mental das pessoas.”
Cármen Formoso Lapido
Escritora, pintora e crítica de arte
“Enteabre a viseira da mente para chegar à inspiração e cria a sua arte buscando o essencial. Se alguma coisa não é essencial para si, não a vê.”
Idem
Ibidem
“Adelino Ângelo, o melhor intérprete de um estilo de vida tão pouco valorizado – tão depreciado – pela sociedade orgulhosa e conformista. O que existe de errático, esquivo, dolente e fatal nos ciganos – que é todo um estilo e uma filosofia de vida – cai sob o olhar embevecido do pintor, penso eu que por um fenómeno de afinidades electivas ou talvez, quem sabe?, por causa de um complexo freudiano de compensação.
Teríamos de chamar os grandes mestres da pintura universal para encontrar antecessores e modelos, para esquematizar o modus operandi deste genial artista português – Velásquez e Sorolla vêm à memória –, mas isto por si só não explica toda a pintura de Adelino Ângelo, grande mestre da pintura universal.”
José Maria Alvarez Blasquez
Real Academia Gallega e director do departamento de história do Museo Municipal de Castrellos
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