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Manuel Martins corre, pinta, esculpe e escreve
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Manuel Eduardo Fortuna Martins, especialista em Fisiatria, Medicina Desportiva e ex-chefe de serviço do Hospital de Santa Maria, tem-se dedicado às mais diversas actividades artísticas, nomeadamente como escritor, poeta, artista plástico e escultor.
Como cidadão universal que se sente e sempre sentiu, fez um pouco de tudo, desde trabalhador da construção civil, marçano e revisor tipográfico, para pagar o curso da sua vida – a Medicina.
Os seus interesses são vários e vão das artes ao coleccionismo e ao desporto, notabilizando-se nas corridas de fundo das quais se destaca os 70 quilómetros non stop.
«O caminho faz-se caminhando» é o lema de Manuel Martins, que foi o criador dos Jogos Médicos e persiste em viver rodeado de prazeres como o golfe ou os passeios nos seus automóveis clássicos, que chegam para um autêntico museu ambulante.»
“Uma maratona por ano até aos sessenta”
Medi.com – Em 1984 criou os Jogos Médicos Nacionais, de que foi presidente. Esta iniciativa teve a ver com a sua especialidade de fisiatra?
Manuel Fortuna Martins – Teve e não teve.
Teve porque a minha escolha pela especialidade de Fisiatria foi movida pela minha grande paixão pelo desporto. Estávamos nos anos 80 e a especialidade de Medicina Desportiva não passava de uma miragem. Assim, a Fisiatria era a área em que, na minha óptica, poderia intervir mais junto dos atletas. Recordo com saudade as palavras do nosso falecido colega Dr. Carlos Ribeiro, que por graça dizia que os desportistas não se lesionavam no aparelho cardiorrespiratório mas sim no locomotor.
Não teve, porque a criação dos Jogos Médicos surgiu da minha vontade de que a classe médica criasse hábitos regulares de actividade física. Só assim poderiam sentir necessidade de prescrever exercício físico aos seus utentes. Aliás, poucos anos depois, a OMS divulgava a necessidade de prescrição de exercício físico de forma galénica. Os médicos aderiram ao desafio, e ao longo dos últimos vinte e três anos vários milhares de colegas responderam sempre à chamada.
M.com – Desde muito cedo dedicou-se a diversas actividades artísticas, nomeadamente como escritor e poeta, artista plástico e escultor, daí que tenha participado em várias exposições individuais de pintura e escultura, para além de ter publicado alguns livros. Como é que nasceu em si esta apetência para as artes?
MFM - Desde muito novo que gostava de desenhar tudo o que via pela frente. Também fazia poemas por tudo e por nada. Vim recentemente a descobrir, publicados na revista do colégio que frequentei, poemas que já não me recordava sequer deles.
A pintura surgiu mais tarde e nessa área, para além de uma exposição individual, participei em mais de uma centena de mostras colectivas. Já a escultura teve início num desafio feito pela nossa colega Dra. Hermínia Grenha, há cinco anos. Fui, gostei e agora é o que faço com mais assiduidade, juntamente com o desenho, que continua a ser a minha paixão.
Catarse da vivência da guerra colonial
M.com – Foi distinguido em 1991 com o Prémio Revelação de ficção da SOPEAM com o romance Horas Malditas. Esta foi a sua primeira incursão pela área das letras ou teve outras?
MFM - Já tinha escrito alguns artigos de opinião em revistas de desporto, poemas dispersos por revistas e jornais, mas ficção propriamente posso dizer que foi com o Horas Malditas que comecei. E essa vontade surgiu da necessidade de fazer uma catarse da minha vivência da guerra colonial. Ainda não era médico. Aliás, a minha vinda para Medicina deve-se à experiência vivida como chefe da equipa que enterrava os mortos de guerra, que como se calcula foi muito traumatizante, mas que me ligou definitivamente à necessidade de aprender a salvar vidas.
M.com – Como pintor, para além das várias exposições, mereceu uma referência no livro «Aspectos das Artes Plásticas em Portugal», da autoria de Pedro Infante do Carmo. Como reagiu a esta distinção?
MFM - Com serenidade. É sempre agradável saber que a nossa obra é divulgada.
70 quilómetros non stop
M.com – O golfe é uma modalidade que ainda hoje pratica, embora tenha passado pelo basquetebol, andebol, hóquei em patins, esqui, snowboard, voleibol e atletismo, dedicando-se ainda a esta última no longo fundo. De qual destas modalidades desportivas tem mais saudades?
MFM - O golfe mais ou menos a sério só o iniciei este ano. Já tinha tido uns contactos com a modalidade, mas coisa passageira. Mas no futuro é a modalidade que irei praticar mais, pois vivo junto de um campo de golfe, o que é uma mais-valia para poder fazê-lo. Mais a sério ainda faço corrida de fundo (corri a maratona de Roma em 18 de Março deste ano). No ano de 2004 corri seis meias-maratonas, quatro maratonas (Viena, Sevilha, Lisboa e Estocolmo) e os 100 km de Torhout, na Bélgica. Isto num ano! Prova que ainda faço o fundo a sério! Já em 2006 participei na corrida “Correr por quem não pode”, organizada pelo Clube do Stress, que ligou o Porto a Lisboa no sistema de estafeta, em que realizei vários percursos ao longo dos dois dias de prova, tendo feito as últimas três etapas seguidas, que ligaram Bobadela à Torre de Belém (26 km). No total, corri em non stop, 70km.
Respondendo à sua pergunta. Não tenho saudades de nenhuma modalidade em particular. Cada coisa no seu tempo e no seu lugar. Citando o poeta, “o caminho faz-se caminhando”. Quanto ao futuro, penso correr uma maratona por ano até aos 60 anos! Depois… vai-se indo e vai-se vendo, como diz o povo.
De marçano a médico
M.com – Antes de ingressar na Faculdade, fez um pouco de tudo na vida, desde trabalhador da construção civil, marçano, empregado das finanças, revisor tipográfico entre outras actividades. Este percurso foi a forma que encontrou para enfrentar os custos do curso de Medicina?
MFM - É verdade que me formei sempre a trabalhar. Mas as experiências da construção civil e de marçano tiveram mais a ver com as minhas irreverências de juventude. Sempre preservei a minha independência, o que ainda hoje é lema da minha vida.
M.com – Actualmente dedica-se especialmente ao coleccionismo, mais precisamente de arte portuguesa surrealista contemporânea. Isto quer dizer que arrumou em definitivo os pincéis, ou esta é mais uma das suas formas de realização?
MFM - São tudo coisas diferentes e esta é uma delas, mas que se podem completar.
De António Pedro a Arpad Szenes
M.com – Do seu excelente e extenso acervo de pintura, que pintores destaca?
MFM - Possuo perto de 50 surrealistas portugueses. Faltam-me alguns de grande importância como o António Pedro, só como exemplo. Do meu acervo constam Cruzeiro Seixas, Cesariny, Mário Botas, João Rodrigues, D’Assunção, Escada, Gonçalo Duarte, entre muitos outros marcantes deste movimento. Dentro dos contemporâneos, Cargaleiro, Resende, Arpad e Bual estão entre os que marcam presença.
Museu ambulante de automóveis
M.com – Colecciona ainda automóveis clássicos, relógios de bolso, cavalos de todo o mundo (não verdadeiros) e livros antigos, entre outras coisas. Quer pormenorizar um pouco isso, no que toca aos automóveis clássicos e relógios de bolso?
MFM - Os automóveis clássicos são como um museu ambulante, dão sempre prazer a quem os vê passar. Estão todos a andar. Mas dão bastante trabalho na sua conservação e manutenção. Possuo apenas cinco, sendo o mais antigo um Citroen 5HP de 1924 e o mais “jovem” um Fiat 500 de 1971.
Já os relógios de bolso, possuo desde os chamados “cebolas” até aos famosos Roskof. Desses, possuo alguns dedicados a diversas profissões: O chefe da estação, o cavaleiro, etc…
Mas apesar de tudo eu não passo de um “ajuntador” de várias coisas de facto, pois gosto de ter mas não vivo obcecado com isso.
M.com – No que toca aos livros antigos, procura as primeiras edições ou tem mais em conta a raridade?
MFM - Tenho várias primeiras edições de colecção. Mas possuo também alguns exemplares muito antigos (o mais antigo é de 1567).
Possuo também a obra completa de alguns autores, como Saramago ou Tomás da Fonseca, por exemplo. Mais recentemente, consegui reunir um exemplar de todos os melhores autores portugueses publicados no século XX, a partir de uma obra organizada pelo Prof. Fernando Pinto do Amaral, editada pelo Instituto Camões, algumas delas em primeira edição.
Possuo ainda uma razoável biblioteca de História e de Arte, área por que tive sempre uma grande paixão.
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