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Ano 2007 - Nº 135/136 - Quinzenal - 30 de Setembro de 2007

  Entrevistas


Lídio Simões, poeta e médico de família

Juramento de Hipócrates é «uma rosa legada em testamento»


“Os clínicos gerais são alvo de conceitos retrógrados provenientes de muitos dos seus pares para que os mesmos fiquem limitados a um exasperante obscurantismo”. Esta é uma das mensagens que Lídio José Neves Simões, especialista em Medicina Geral e Familiar, que exerce no Centro de Saúde da Penha de França, quer fazer passar nos dois livros «A Medicina em Sonetos» e «Fascínios e Desencantos», publicados recentemente, embora neste último desenvolva recordações e ensinamentos que ficaram gravados no seu percurso e que farão sempre parte das suas vivências. Este médico de família não deixa, no entanto, de fazer algumas críticas aos políticos, nomeadamente na falta de apoios estatais, o que obriga a que sejam os próprios médicos a suportar do seu bolso os custos da actualização da formação profissional, para além de o Estado não «pagar com a mínima honorabilidade os serviços prestados pelos clínicos».

Medi.com – No passado mês de Março publicou através da Editora 100 dois livros de poesia: «A Medicina em Sonetos» e «Fascínio e Desencantos». No primeiro dedica sonetos a várias doenças que se incluem nos principais capítulos da Medicina. Esta foi a forma de desvanecer alguns epílogos da vivência de um médico de família?
Lídio Simões – Torna-se evidente que, como qualquer clínico geral que já tenha o seu curriculum vitae adequadamente elaborado ao longo do seu exercício profissional, não me tenho apenas limitado à aquisição de conceitos técnico-científicos exclusivamente médicos, mas também a outras formas de desenvolvimento cultural, nomeadamente, no campo literário, através da minha pessoal colaboração em livros, revistas e jornais de especialidade, que reflectem com certa fidelidade experiências por mim vivenciadas e das quais são exemplos as presentes obras.

M.com – Poder-se-á entender que procurou no decorrer desta abordagem inserir estas matérias num contexto de mais fácil apreensão de ordem circunstancial para os leigos nestes temas?
LS – De certo modo mantive presente a preocupação de não enveredar em larga medida no âmbito da generalidade das patologias explicitadas nas referidas obras, tentando conciliar as vertentes do conhecimento científico e humanístico de modo a proporcionar aos leitores uma interpretação que, sem perder de vista a sua essencial temática, fosse também susceptível de lhes despertar algo de interesse.

M.com – Nas considerações finais de “A Medicina em Sonetos” diz que cabe ao médico de família “uma significativa parcela de responsabilidade na prestação de cuidados de saúde, que deve acabar por dominar através de uma preparação adequada”. Que mensagem é que pretende passar para os seus pares?
LS – Como se sabe, qualquer dos países minimamente evoluídos e cultos (que não é o caso do nosso, país periférico e atrasado em relação aos da maioria da Europa civilizada, onde tudo se faz por compadrio e não por mérito pessoal), têm uma bitola de desenvolvimento sócio-cultural cujas traves-mestras, entre outras, são inequivocamente definidas pela prática clínica de cuidados de saúde humanizados.
A Medicina tem sido e será sempre a espinha dorsal de qualquer sistema de saúde do mundo, quer seja em Portugal ou outra remota parte do globo, sendo de facto os clínicos gerais alvo de conceitos retrógrados provenientes de muitos dos seus pares para que fiquem limitados a um exasperante obscurantismo.

M.com – Afirma ainda, a propósito deste livro, que se trata de uma obra sui generis, que não deixa de ser realçado pelo género de inédito humorismo. Contudo, os sonetos não deixam perceber esse mesmo humorismo, porquê então esta alusão?
LS – «A Medicina em Sonetos» é, comprovadamente e modéstia à parte, uma obra sui generis demasiado séria para ser confundida em algumas das suas passagens com um vulgar humorismo (daí o termo “inédito” aplicado) que introduz na sua composição o recurso a algumas conotações semânticas cujos desfechos possam, de certo modo, suavizar o peso das interpretações das matérias na mesma inseridas.

M.com – Na contra-capa de “A Medicina em Sonetos” inclui um outro Juramento de Hipócrates. O que é que pretendeu com este soneto?
LS – É do conhecimento geral que todos os médicos estão indelével, profissional e moralmente vinculados ao Juramento de Hipócrates. Cabe-lhe a grata função de poder proporcionar ab initio aos médicos recém-formados a interiorização duma prática científica e humanística que os deve nortear toda a sua vida, mesmo a despeito da multiplicidade dos escolhos que se lhes vão deparando pelo caminho. O Juramento de Hipócrates, com a gratidão que lhe é devida, deve ser metaforicamente interpretado «como uma rosa legada em testamento».

M.com – O livro «Fascínios e Desencantos» está dividido em três partes: Fascínios – primeira parte; Fascínios – segunda parte; e Desencantos. Enquanto que nas duas primeiras partes denota um cariz auto-biográfico, na última parte verifica-se uma certa crítica ao país, à Medicina e até aos governantes. Quem é que pretende atingir nomeadamente com os sonetos com cariz crítico?
LS – «Fascínios e Desencantos», nas suas duas primeiras partes, desenvolve ternas e inesquecíveis recordações e ensinamentos que ficaram gravados num percurso de singeleza e dignidade, os quais farão sempre parte das minhas vivências. No seu subtítulo «Valores mais puros», integrado na sua segunda parte, põe em evidência uma introdução relativa à desmesurada crueldade e desenfreada competição deste hórrido e paradoxal mundo em que vivemos, no qual predominam os asfixiantes conceitos do materialismo com o seu expoente máximo elevado ao valor do dinheiro.
Seguidamente, desenvolve toda uma série de comportamentos sociais do nosso quotidiano, indiscutivelmente verídicos, contagiantes e adoptados como padrões de vida das sociedades contemporâneas, ditas civilizadas, nas quais apenas têm direito a uma sobrevivência privilegiada os oportunistas, os improdutivos, os medíocres e os situacionistas.
Veja-se, por exemplo, quem é que tem «progredido» nas carreiras médicas. São os habituais grupinhos dos que, de um modo geral, ao seu intelecto pouco ou nada devem, ou antes, «das que», visto que a Medicina nestas últimas décadas tem vertiginosamente resvalado para uma duvidosa ética predominantemente feminista.
Por outro lado, os sucessivos governantes deste país não se mostram interessados em «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», ou seja, pagar com a devida ou mesmo a mínima honorabilidade os serviços prestados pelos seus clínicos, muitos dos quais, à falta de pertinentes e até dos devidos apoios estatais, sempre vão financiando, eles próprios, e assim continuam para conseguirem a actualização da sua formação profissional.
É evidente, particularizando neste campo o caso dos clínicos gerais, que alguém se lembre de fazer reaparecer os famigerados institutos de clínica geral das zonas Norte, Centro e Sul, que em boa hora, diga-se de passagem, foram extintos por completo, visto que além de não proporcionarem formação alguma aos médicos que frequentaram os seus indesejáveis “cursos”, ainda outros médicos albergavam, designados por “orientadores” (de nada), aos quais, pelo facto de estarem infiltrados neste ignóbil e aberrante sistema, foram concedidos graus da respectiva carreira em detrimento de colegas a quem os mesmos injustamente prejudicaram. E nem sequer os currículos médicos são apreciados por quem deve e, na generalidade, não é tomada em linha de conta o seu grau valorativo, mas sim uma grelha classificativa que ninguém conhece e mais ao bel-prazer dos respectivos apreciadores, a qual, na realidade, em absolutamente nada os classifica.
Não é fácil tornar evidente aos critérios do Estado que o médico integrado na função pública não é, nem nunca poderá ser, uma simples e manipulável peça de xadrez, mas, muito pelo contrário, ele constitui uma entidade autónoma muito própria e indispensável. Pelos vistos, só não são considerados funcionários públicos um elevado número de privilegiados, com principescos vencimentos e pensões de reforma, algumas delas até preocupantemente antecipadas, à sombra do corporativismo da designada reserva irredutível, tal como acontece na Justiça, nas Forças Armadas e na política, na representação externa, etc., muito embora estejam também dependentes das retribuições pecuniárias aos mesmos atribuídas pelo Estado.
Uma preconizada, iníqua e desgastante democracia indubitavelmente com dois pesos e duas medidas.

M.com – A Quinta das Lágrimas merece-lhe nesta obra uma crítica mais acintosa. Porquê?
LS – A Quinta das Lágrimas, muito embora actualmente desfigurada, continua a ser uma espécie de pergaminho histórico que me mereceu, com toda a propriedade, este poema com o seu nome. Ele fala-nos, na sua essência, de um lugar de mágoas resultantes da perfídia e da crueldade dos homens que recorrem a toda a espécie de falsidades, erróneos conceitos, à lei, para tentarem legitimar os seus mais hediondos crimes. Mas também nos fala de amor em limites que transcendem a força do poder instituído e a compreensão de qualquer simples mortal. Na verdade o que seria deste pobre mundo se nele não existisse ainda um pouco de amor? Absolutamente nada!

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