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Dr. Carlos Morais
«Quando conduzo no deserto esqueço-me de tudo»
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Consultor de Cardiologia a desempenhar funções profissionais no Centro Nacional de Medicina Desportiva, o Dr. Carlos Morais faz da condução automóvel o entretenimento com que ameniza o intenso labor clínico.
Apesar de já ter feito muitos quilómetros no deserto, que ultrapassam dois Paris-Dakar, este cardiologista nunca almejou participar neste tipo de provas. Basta-lhe o todo-o-terreno turístico como escape, afinal um hobbie que não considera caro, a não ser a aquisição das viaturas
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Medi.com . Quais as motivações que o levaram para a prática do todo-o-terreno?
Dr. Carlos Morais . Em primeiro lugar conhecer locais novos e enfrentar situações novas de condução. O que eu faço é o todo-o-terreno turístico e o que me motiva mais na prática deste desporto é o domínio sobre a máquina, isto é conduzir em situações que são pouco habituais no dia-a-dia. Por exemplo numa das fotografias que ilustra esta entrevista, embora não muito aparente está uma descida que mete medo. Houve pessoas que não quiseram ver-me fazer esta descida. O que é agradável neste tipo de todo-o-terreno, que é sempre acidentado, é o domínio sobre o carro numa situação muitas vezes extrema. Por outro lado, ter um auto-controlo sobre aquilo que é a tendência normal da pessoa na condução: nesta descida, o carro foge. A tendência habitual é travar. Ora o que há ali a fazer é acelerar! Aquilo que é engraçado neste tipo de desporto é termos de estar automaticamente mentalizados para fazer o contrário do que era suposto à partida. Portanto é o domínio da máquina e do medo.
Em termos globais as motivações quer aqui, quer no deserto, são passear, conhecer novas paisagens, novas pessoas. No caso do deserto dá muito gozo conduzir na pista e acima de tudo nos lagos salgados. A condução na pista e nos lagos salgados dá uma sensação de liberdade absoluta, e então nos lagos salgados é o expoente máximo dessa sensação. Não há trilhos, não há pista, vai-se à velocidade que se pode, porque é preciso ter muito cuidado no deserto.
Manutenção pouco dispendiosa
M.com . É um desporto caro? Necessita de uma viatura preparada em termos de embraiagens, suspensões e transmissões?
Dr. C.M. . O que sofre mais é sempre a suspensão e a transmissão. E os pneus. Aliás, para o deserto nunca levamos pneus novos. É um erro. Porque os pneus novos enterram na areia. Tem de ser pneus gastos. De acordo com o tipo do todo-o-terreno que vamos fazer temos de seleccionar os pneus.
Não é um desporto muito caro. O que é mais caro é os carros. A manutenção em si tem alguns custos, mas é menos dispendiosa do que se pensa.
Patrocínio às organizações
M.com . Há algum tipo de patrocínios para o todo-o-terreno turístico?
Dr. C.M. . Não. Não há. Há alguns patrocínios nas organizações dos passeios. Há empresas que patrocinam a organização em si, o que torna as inscrições mais baratas. Agora, quando me inscrevo sou eu que pago tudo. O patrocínio é à organização, não aos participantes.
M.com . Tem já uma grande prática de condução em trilhos difíceis e sobretudo no deserto, onde se realizam hoje as maiores provas do mundo. Alguma vez pensou entrar em competição, nomeadamente num Paris-Dakar?
Dr. C.M. . Não.
M.com . Porquê?
Dr. C.M. . Por dois motivos: não é a competição que me atrai no todo-o-terreno e pela idade.
M.com . Mas há concorrentes mais velhos.
Dr. CM . Sim, mas começaram há mais tempo na competição. E a competição já não estaria ao meu alcance porque teria de ter patrocínios, o que na minha idade se torna quase impossível.
M.com . O que o marcou mais nesses passeios turísticos?
Dr. C.M. . A população marroquina, especialmente as crianças. As crianças marroquinas vêm sempre ter connosco, e quando vamos a Marrocos levamos sempre lembranças, especialmente as coisas mais simples que eles adoram, rebuçados, roupas usadas.
M.com . Já fez os percursos que correspondem de dois Paris-Dakar, na parte marroquina. Alguma vez teve problemas com salteadores ou outro tipo de grupos semelhantes?
Dr. C.M. . Não. Em Marrocos não há, nunca houve.
Navegação com GPS
M.com . E fazem navegação com GPS ou à vista?
Dr. C.M. . Com GPS. Geralmente o que fazemos é coluna: dois carros levam GPS e depois segue-se a coluna. Portanto navegação à vista com GPS digamos assim.
M.com . Que género de logística é que têm para essas excursões no deserto?
Dr. C.M. . Levamos sempre um guia, vão dois carros com GPS, um dos quais o meu, um mecânico e um médico. Depois há um conjunto de regras de acordo com a época do ano para autonomia dos carros em termos de combustível e de água. Mas nós fazemos a expedição por etapas e portanto quando se chega às cidades há água, combustível e tudo isso, embora se tenha de ter essa logística mínima.
M.com . Tem alguma expedição agendada para breve? Mauritânia à vista
Dr. C.M. . Está ainda um pouco na dúvida, mas, em Fevereiro, a Mauritânia.
M.com . Não tem receio que possa haver algum encontro com grupos menos amistosos, dado que se trata de uma zona perigosa.
Dr. C.M. . É, porque vamos passar cá em baixo na República Saraui. Mas também pretendo fazer o deserto da Líbia que me dizem ser o deserto mais bonito do mundo.
M.com . Este desporto é um escape para a sua intensa actividade profissional?
Dr. C.M. . Sim, de qualquer forma é uma maneira de escapar. Principalmente quando conduzo no deserto, esqueço tudo.
M.com . Mesmo tratando-se de todo-o-terreno turístico a marca do seu carro patrocina-o de alguma forma?
Dr. C.M. . Não, não. Eu tenho duas viaturas e estou ligado a um clube da marca de um deles e vou aos passeios que a marca organiza. É a vantagem que tem pertencer aos clubes: eles organizam, nós muitas vezes nem sabemos qual é o percurso, apresentamo-nos no local, pagamos e fazemos o passeio.
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