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Alberto Agualusa
«Não sou adepto de trajectórias pensadas e orientadas»
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Embora se tivesse iniciado com a caricatura no Livro de Curso, onde retratou colegas e professores, o Dr. Alberto Agualusa que fez a sua carreira nos H.C.L. de 1967 a 1996, altura em que se aposentou como Chefe de Serviço de Cardiologia Pediátrica do Hospital de Santa Marta, só a partir desta data é que encontrou disponibilidade e sossego para se dedicar à pintura.
A oportunidade surgiu quando o filho lhe ofereceu no Natal um pequeno estojo de pintura. Nunca mais parou: já conta no seu currículo com mais de 50 exposições colectivas no país e foi distinguido com o Prémio de Pintura da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho e com duas menções honrosas do Prémio Mário Botas
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Medi.com – O Desenho no Liceu deu-lhe algumas bases para a caricatura, no seu Livro de Curso, onde retratou Colegas e Professores, figuras da Medicina Portuguesa?
Tendo em vista a qualidade do seu traço porque abandonou este tipo de expressão?
Dr. Alberto Agualusa – Por falta de tempo, como acontece com todos os médicos.
Depois do Serviço Militar, em Portugal e Angola (4 anos), veio a Carreira Hospitalar, com vértice na Cardiologia Pediátrica do Hospital de Santa Marta. A assistência e o ensino da Especialidade foram muito exigentes. Creio que se continuasse a desenhar teria sido bem sucedido, mas, quando se abraça uma carreira como esta, algo tem de ficar para trás na medida em que primeiramente estava o conhecimento técnico e científico da Medicina no seu todo, e não só da especialidade.
Grupo “Metamorfosis”
M.com – Depois enveredou pela Pintura. Teve formação técnica?
Dr. A.A. – Só a partir da reforma, em 1995, tive disponibilidade para fazer coisas sempre adiadas. No Natal desse ano, ou do ano seguinte, o meu filho ofereceu-me um pequeno estojo de pintura. As experiências iniciais foram satisfatórias, donde surgiu a necessidade de informação teórica e prática em escola. Primeiro fiz o Curso de Iniciação à Pintura com o pintor Jaime Silva e em seguida o de Desenho com o escultor Quintino Sebastião, em regime pós laboral. Actualmente estou no 4º ano de Desenho e já vão oito anos desta formação prática. Simultaneamente frequentei Cursos de História de Arte e Estética, todos na Sociedade Nacional de Belas Artes. Noutros cursos, de curta duração, em Serralves, Centro Cultural de Belém e particulares (de Gravura) tenho alargado conhecimentos. As viagens com intenção cultural a museus nacionais e estrangeiros têm ajudado.
A partilha de atelier com pintores amigos e reuniões periódicas de discussão de trabalhos (Grupo “Metamorfosis”, de que faço parte) têm sido muito estimulantes.
Liberdade de experimentar
M.com – Os seus quadros mostram-nos fases muito diferentes e até díspares. Como é que fez esse percurso?
Dr. A.A. – Não sou adepto de trajectórias pensadas e orientadas (chegaram as da Escola). Apetece-me liberdade, experimentar o que me vier à cabeça: figurar, transfigurar, imaginar, abstratisar, colar, raspar, pintar e repintar.
Naturalmente que isto não aconteceria se fosse pintor de formação, ou profissão.
Ir para além dos objectos
M.com – À Paisagem sucedeu-se, de certa forma, o Surrealismo. Porque é que mudou?
Dr. A.A. – Toda a gente muda. Aliás, no Ensino é obrigatório fazerem-se exercícios dos vários géneros. Por ter começado num Inverno fiz a primeira pintura de memória, à lareira: rosas, adoro rosas e buganvílias. À pintura figurativa seguiu-se a procura da abstracção, o que não foi tarefa fácil. A certa altura, na Escola, houve um exercício que durou semanas e que considero ter ajudado na resolução de dúvidas. Tratava-se de cada aluno escolher um “conceito” e pintá-lo da maneira que quisesse. Por exemplo pintar a “rugosidade”, ou a “transparência”, no entanto sem representar qualquer objecto.
Além de conduzir à abstracção, o exercício ajudou-me muito a ir para além do que é visível nos objectos, na Natureza. É preciso ir ao seu cerne, ao que nos impressiona, e então exprimir as sensações ou emoções geradas através da pintura.
Não receio a crítica
M.com – Já participou em mais de meia centena de exposições colectivas e só numa individual. Tem receio de se expor em demasia nas individuais?
Dr. A.A. – Não! Não receio a crítica do meu trabalho. Como referi, muitas vezes pinto em conjunto com amigos e submetemo-nos aos pareceres uns dos outros. Isso ajuda muito; cada olhar dá a sua achega e podem ser diferentes uns dos outros, ou terem pontos comuns. A crítica é indispensável, começando pela nossa própria, que é a mais importante.
Por outro lado, como participo em grande parte das exposições do Auto Clube Médico Português (A.C.M.P.) e nas do Grupo “Metamorfosis” fica-me pouca margem para reunir um número de peças tal que me permita avançar para as exposições individuais.
Cada prémio é um estímulo
M.com – Foi premiado pela Sociedade Portuguesa de Medicina no Trabalho, com o Prémio Dr. Anastácio Gonçalves (ACMP), e teve menções honrosas no Prémio Mário Botas (Ordem dos Médicos). De que forma é que sente estas distinções?
Dr. A.A. – Com enorme satisfação, é evidente. Cada prémio é um estímulo, ainda que resultem de exposições só de pessoas “da casa”, de médicos. Em 2004 fui convidado para apresentar uma serigrafia no Congresso Nacional de Cardiologia e para fazer uma entrevista para a TV Medicina (Cabo). É realmente compensador fazer pintura ainda que muitas vezes tenha fases de desânimo e de inércia. A verdade é que toda a gente que conheço as tem. Mas depois volta-se à luta.
M.com – Agora, que está reformado, o que espera futuramente da sua pintura?
Dr. A.A. – Continuar na senda da procura e da satisfação pessoal. Trabalhar mais para fazer melhor.
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