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Ano 6 - Nº 96 - Quinzenal - 30 de Setembro de 2005

  Hobbie


Dra Graça Caldeira Aparício
«A pintura é o culto do Belo»

Natural do Funchal, licenciada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, a Dr.ª Graça Caldeira Aparício, Assistente Graduada de Clínica Geral no Centro de Saúde de Abrantes, extensão de Alferrarede, e Master Especialista em Sofrologia Caycediana, apresenta-se-nos como uma verdadeira pintora dos tempos livres, visto que outras obrigações a impedem de momento dum maior convívio com os pincéis.
Da vida conhece a Medicina e a Arte, inspiração que lhe enche a alma, a harmonia estranha e muito própria que faz com a mistura de cores deslizando pincéis quais plumas cariciosas na face pálida das telas, onde as tintas vivazes marcam o relevo das imagens que cria no seu cérebro de artista


Medi.com – A sua pintura passa por diversos estilos e técnicas, entre os quais, o retrato, paisagem, cubismo, aguarela, etc., etc. Em qual das técnicas se sente mais à vontade?

Dr.ª Graça Caldeira Aparício – O desenho, quer a carvão quer a pastel seco, são técnicas para mim mais intuitivas que todas as outras que já experimentei. O facto de com estas técnicas poder desenhar com os dedos, mexer, transmite-me um sentimento de profunda intimidade com a obra que vai surgindo. É como se o desenho nascesse mais directamente de mim.


A pintura no sangue


M.com – Nasceu na Madeira, formou-se em Lisboa e exerce no concelho de Abrantes, o que quer dizer que teve e tem o seu tempo muito ocupado.
De onde é que vêm os seus conhecimentos nas várias técnicas e estilos de pintura?

Dr.ª G.C.A. – A minha mãe sempre teve a pintura “no sangue”. Era autodidacta e transmitiu-me não só o gosto, mas algumas noções de proporções, jogos de cores, etc. Mas o verdadeiro “mergulho” no desenho e pintura deu-se quando conheci Massimo Esposito, um pintor italiano radicado em Abrantes. Ingressei nas suas aulas em 1997 e desde aí nunca mais parei de aprender. Tem sido um percurso muito interessante, desde a aprendizagem de técnicas básicas do desenho, até incursões em técnicas diversas de pintura, experiências dentro de vários estilos, etc.. O professor Massimo, como nós lhe chamamos, é um homem cheio de ideias e iniciativas e realmente é o principal responsável pelos conhecimentos que fui adquirindo.
Com ele temos acesso a sessões de desenho com modelos ao vivo, pintura ao ar livre, visitas a exposições e museus, pesquisas de vários estilos seguidas de trabalhos inspirados de estudo dos mesmos, exposições dos trabalhos, visitas de pintores consagrados à escola, com partilha dos seus conhecimentos entre tantas outras actividades.
Também tive algumas aulas muito interessantes, durante um curto período, em Lisboa, com Jorge Calero, um pintor colombiano. No entanto não era fácil, depois de uma semana de trabalho, deslocar-me a Lisboa para ter um dia inteiro de aulas, por isso não continuei.

Atraída pelo mundo da pintura

M.com – O que é que representa para si a pintura?

Dr.ª G.C.A. - Para mim a pintura é o culto do Belo. Sempre me senti muito atraída por este “mundo”. Acho que é mágico conseguir fixar no papel, na tela, um momento de beleza: um reflexo de luz no mar, um jogo espectacular de nuvens ao pôr-do-sol, uma expressão facial, um movimento... Os momentos que dedico à pintura ou ao desenho, significam uma visita a uma outra realidade. Saio de um planeta e entro noutro.

Pintura e desenho: um hobby


M.com – O retrato que faz apresenta-se com uma qualidade que poderá augurar um grande futuro, o que de resto já foi reconhecido com a atribuição de uma menção honrosa.
Sabendo-se que neste momento existem muito poucos retratistas, não seria este um percurso a seguir?

Dr.ª G.C.A. – Reconheço que tenho alguma facilidade na área da figura humana, sobretudo na captação da expressão facial. Sempre me divertiu estar em cafés ou reuniões (sobretudo as mais maçadoras...) e registar traços faciais de quem me calhava na “mira”. Mas o desenho e a pintura são para mim um hobby a que até só consigo dedicar muito pouco tempo. Por isso nem sequer posso falar em escolha de um percurso.
Faço o que no momento me apetece ou em resposta a desafios. Por exemplo, sinto-me bem a pintar temas marinhos. Já que vivo longe do mar, ao menos trago-o um pouco para as minhas telas. Não se esqueça que sou madeirense.

Conhecer o cubismo por dentro

M.com – Fez um ensaio/estudo na área do cubismo, que transgride pela positiva aquele estilo. Não pensa ir um pouco mais longe, já que o quadro em si representa uma autêntica revolução e desafio aos que hoje se dizem cultores do cubismo?

Dr.ª G.C.A. - Esse estudo a que se refere foi um desafio curioso. Confesso que o cubismo era para mim um estilo pouco atraente, pouco compreensível e como tal não conseguia empatizar com essa área. O professor Massimo sugeriu que fizéssemos pesquisas e um trabalho. Assim fiz. Por coincidência, tive oportunidade nessa altura de ir a Madrid onde pude apreciar, sem “à priori” algumas obras cubistas de vários autores, entre eles Picasso e Braque, e dei por mim a conseguir gostar de algumas delas.
O trabalho que fiz não é cubismo, chamo-lhe uma tentativa de perceber “por dentro” o olhar de um pintor cubista, uma pequena aproximação aos seus sentimentos.
Para mim foi uma surpresa o prazer que tive ao realizá-lo. É bem possível que venha a fazer outras experiências nesse campo.

Carlos Reis e José Malhoa

M.com – Se tivesse que eleger um pintor português, por qual optaria?

Dr.ª G.C.A. - Não é possível eleger um pintor Português já que temos tantos e tão bons pintores em Portugal. Quando muito, posso realçar a obra de Carlos Reis, a de José Malhoa – são mestres no modo como pintam a vida.
Fico sempre assustadoramente impressionada com os desenhos e pinturas de Paula Rego.
Gosto imenso das cabeças de Graça Morais.
Bom, mas não sou uma conhecedora que se possa dar ao luxo de fazer eleições.

Não declarei guerra às cores

M.com – Nos últimos tempos tem pintado menos do que desejaria, quando é que pensa fazer as pazes com as cores?

Dr.ª G.C.A. – É verdade. Por várias circunstâncias e diversas outras ocupações não tenho pintado quase nada desde há largos meses. Acho engraçado perguntar-me pelas “pazes com as cores”. Apetece-me dizer-lhe que não declarei guerra às cores mas de certa maneira tem razão. Um pouco menos de agitação seria necessária para poder dedicar-me mais à pintura. Mas há tantos projectos interessantes na minha vida e o tempo parece que se escoa com cada vez maior rapidez que estou a ter alguma dificuldade em estabelecer prioridades, o que não significa de maneira nenhuma afastar-me da pintura.

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