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António Trabulo publicou o primeiro livro aos 10 anos
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“Escrever é um prazer”
Houve um interregno de 30 anos entre o primeiro e o segundo contos publicados, mas o prazer pela escrita aumentou. António Trabulo, médico reformado, já assinou seis livros e lançou agora “Os Retornados”.
António Trabulo, neurocirurgião reformado, não se recorda da “trama” do primeiro conto que publicou, mas revela a idade sem hesitação: 10 anos. Trinta anos passados, publicou o segundo, baseado em emigrantes que tinham saído de Foz Côa e que classifica como “meio dramático” e até com “humor negro”.
Este interregno de três décadas tem uma explicação óbvia – deveu-se à medicina que, em tom de brincadeira e entre gargalhadas, o clínico apelida de “uma mulher que não dá para ter amantes”; o mesmo é dizer “uma actividade muito exigente”.
Agora, numa fase profissionalmente mais calma, é a escrita que ocupa parte do seu tempo, tendo agora em fase de lançamento o livro «Os Retornados», de que falaremos mais adiante.
Apesar de sempre ter gostado de escrever, foi só após os 60 anos que se dedicou com mais afinco a este “prazer”, o que, de acordo com as suas próprias palavras, o obrigou a uma “longa aprendizagem”. Para o efeito, começou “por escolher alguns autores para ler”, cuja selecção recaiu sobre Camilo, Aquilino e o Padre António Vieira. Um processo que considerou “necessário”, explicou, rindo: “Aos 60 não se pode apresentar uma coisa mal escrita; só aos 10”.
Para António Trabulo, “escrever é um prazer; é algo que vem de dentro”. Um gozo que já lhe valeu meia dúzia de livros, publicados entre os 62 e os 65 anos. Elegeu o conto como o estilo literário de que mais gosta, mas as suas obras são romances ficcionados. Tem a capacidade de escrever vários livros ao mesmo tempo e, por isso, além de «Os Retornados», tem “outro pronto a ser lançado, mas, por se tratar da Primeira República, vai sair só em Setembro”. E revela ainda o autor que já está “a escrever outro”.
Quanto ao género literário de que mais gosta, diz: “Escrevo ficção com base histórica e etnográfica”. De resto, cerca de metade dos livros de António Trabulo “são voltados para África”, onde viveu dos seis aos 17 anos.
Menos de um ano é o tempo que lhe leva a escrever um livro, o que faz sobretudo pela manhã que considera o período inspirador. No entanto, vezes há que “escrevo sete, oito horas; ou duas ou três”, referiu.
Reformado há sete meses, o médico agora todo voltado para a sua veia de escritor, revela que também outras actividades o fascinam.
«Os Retornados» é o sétimo livro de António Trabulo. Classifica-o como “duro” e é uma realidade que conhece de perto, que lhe morou em casa, como explicou...
“Comprei uma quinta e um barco para andar sozinho”, refere. Neste período, descobriu também o gosto pela agricultura, tendo já plantado 35 árvores.
Percurso literário
«Os Retornados» é o sétimo livro de António Trabulo. Classifica-o como “duro” e é uma realidade que conhece de perto, que lhe morou em casa, como explicou: “Recebi duas famílias de retornados; a do meu sogro e do irmão, embora em períodos diferentes. Acompanhei a carga afectiva terrível deles”.
O autor entende que “é tempo de se falar a sério dos retornados”, deixando de lado o “rótulo” de “tabu”, reconhecendo que “quando se fala neste assunto ainda há pessoas que se zangam e exaltam”. Por isso, defende: “É tempo de abordar de forma descomplexada o que fomos”.
Este livro “faz parte de um projecto que começou com «Os Colonos»” e, por isso, “é um trabalho que aborda com o rigor possível numa obra de ficção a tragédia de quase meio milhão de portugueses que se viram envolvidos numa volta da História, à semelhança de marinheiros arrastados por uma onda imparável”.
Além destes dois livros, António Trabulo já assinou outros como «Mulemba», «No Tempo do Caparandanda», «Diário de Salazar», «Eu Camilo» e «A Última Profecia». A obra do ditador, “foi a que mais sucesso alcançou”, estando já na décima edição.
Sobre o autor
Tem 65 anos e nasceu em Almendra, concelho de Vila Nova de Foz Côa.
Fez os ensinos primário e secundário em Sá da Bandeira, Angola, tendo-se licenciado em Medicina, em Coimbra. Cumpriu o serviço militar no navio-hospital Gil Eanes.
Fez a carreira de neurocirurgião nos Hospitais Civis de Lisboa, tendo-se reformado há sete meses. Há 40 anos que reside em Setúbal. Acumulou diversos cargos na Sociedade Portuguesa de Neu-rocirurgia e, durante dois man-datos, integrou o Conselho Directivo do Colégio da Especialidade de Neurocirurgia.
Num período de doze meses foi presidente do Colégio e, durante cinco anos, coordenador da Região Sul e Ilhas. Actualmente, é presidente da Assembleia Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos.
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