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Ano 2008 - Nº 147-148 - Quinzenal - 30 de Junho de 2008

  Informação

Programa PESCE - Cessação tabágica

Papel mais interventivo
para os médicos de família
PESCE é a sigla do projecto europeu «General
Practitioners and the Economics of Smoking
Cessation in Europe», que visa o envolvimento
dos médicos de família e clínicos gerais na
cessação tabágica dos seus pacientes. Este plano
foi apresentado na Assembleia da República

O projecto «General Practitioners and the Economics of Smoking
Cessation in Europe» tem como objectivo a elaboração de
recomendações políticas e a implementação de estratégias de
prevenção e de cessação tabágica. A conferência de apresentação
foi na Assembleia da República, no dia 6 de Maio, contou com um
painel de especialistas europeus que participam no projecto e com
o impulso do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência
(CEMBE), da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa,
entidade que representou Portugal e que, nesta iniciativa, teve a
parceria da Comissão Parlamentar da Saúde.
Nesta conferência foram apresentados dois estudos e as respectivas
conclusões: uma revisão da literatura sobre os factores que aumentam
a adesão dos clínicos gerais (no caso de Portugal, os médicos de
família) à cessação tabágica; um estudo realizado em 27 países, que
avalia a relação custo/benefício das intervenções dos médicos de
família em cessação tabágica e a sua influência nas economias
nacionais europeias, com especial incidência no nosso país; e as
recomendações em política de saúde para cessação tabágica em
cuidados primários.
Na conferência que decorreu na Assembleia da República
participaram o director do CEMBE e do projecto em Portugal,
António Vaz Carneiro; Jean Daver, director do Projecto PESCE em
França; Sybille Fleitman, da Alemanha; e David Cohen, da Escócia.
“A cessação tabágica dá lucro”
António Vaz Carneiro, director do CEMBE, falou deste projecto ao
Medi.com com grande entusiasmo, revelando a crença de que, “caso
haja vontade política, rapidamente poderá ser posto em prática”.
Para o professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, as vantagens
do PESCE são irrefutáveis, quer em termos de saúde pública quer em
termos de benefícios fiscais. António Vaz Carneiro salienta mesmo
que “a cessação tabágica dá lucro!”. Quando é estipulada uma
quantia para uma doença, há um benefício na saúde, mas o dinheiro
está perdido. Contudo, na cessação tabágica isso não acontece,
porque, segundo o investigador, “quando há cessação tabágica há
libertação de recursos para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e há
um benefício a nível da saúde pública porque se previne uma série
de doenças ligadas ao tabagismo. Logo, benefícios económicos”.
Segundo António Vaz Carneiro, em matéria de efeitos nocivos, nem
o colesterol nem a hipertensão estão ao mesmo nível dos hábitos
tabágicos, que, defende, continuam a ser o factor de risco número,
mas o projecto PESCE pode dar um bom contributo no seu
combate. Em Portugal, apostar nos médicos dos cuidados de
saúde primários (CSP) foi a forma mais acertada que o grupo de
trabalho liderado por António Vaz Carneiro encontrou para garantir
a eficácia de um programa de cessação tabágica. O docente
adverte, contudo, que “podem seguir-se outros caminhos, como
o de aumentar o preço dos cigarros”. Segundo o director do
CEMBE, “está provado que as classes com maior índice de
fumadores são a mais pobre e a dos jovens, que são também, por
sua vez, quem mais sente os aumentos”. Mas, para António Vaz
Carneiro, o plano apresentado através da PESCE parece ser mais
coerente e justo” do que se fossem encaradas outras soluções que
penalizassem financeiramente os fumadores.
Na essência, a aposta do PESCE na envolvência dos médicos de
família na cessação tabágica é uma boa ideia porque são estes
médicos que estão mais próximos dos utentes, podendo por isso
mais facilmente avançar com programas de apoio à cessação
tabágica. Deixar de fumar deve ser uma decisão simples para a qual
se pode avançar através de uma consulta no centro de saúde e as
políticas de recomendação do PESCE apontam, justamente, no
sentido de facilitar esta tarefa. “Todos devem fazer cessação
tabágica, mas na realidade os médicos estão já tão sobrecarregados
que não a fazem. É preciso desenvolver políticas, desburocratizar
as tarefas, de maneira a facilitar a vida aos médicos, dando-lhes
disponibilidade para este tema”, defende António Vaz Carneiro.
A medicina preventiva, como é o caso, gera sempre alguma
resistência no seio de determinados sectores mas, para o director
do CEMBE, “se houver boa vontade, em dois ou três anos, este
plano estará a funcionar em pleno”, concluiu.

Estratégia assente em estudos científicos

Toda a estratégia aplicada pelo projecto PESCE é baseada em
estudos científicos e desenvolve-se em três frentes: médicos que
trabalham nos CSP envolvidos – e mais bem informados –, cessação
tabágica e estudos económicos, que comprovam a poupança
quando se investe neste tipo de programas. Por fim, há ainda as 15
recomendações feitas aos decisores políticos, nomeadamente a do
desbloqueamento de verbas para apostar no desenvolvimento de
políticas de carácter de intervenção nesta área.
Os principais responsáveis pela boa aplicação deste plano são os
médicos de família, uma vez que está provado que a intervenção
destes clínicos é simultaneamente efectiva e muito eficaz no
combate ao tabagismo. Este plano nasceu da necessidade de fazer
face aos números elevados de fumadores existentes na Europa,
sendo que Portugal não é excepção. Estudos comprovam que o
papel dos médicos podia ser mais interventivo e eficaz, no que
respeita ao apoio prestado aos doentes que querem efectivamente
deixar de fumar. Uma consulta de poucos minutos pode ter efeitos
muito positivos no indivíduo, mas para que esta aconteça é
necessário que o médico disponha dos conhecimentos necessários
e disponibilidade de tempo. O plano já se encontra em condições
de ser aplicado em Portugal – agora basta apenas a boa vontade,
segundo os responsáveis – e demonstra claramente a relação
custo/benefício da cessação tabágica nas despesas de saúde.

Estimativas “saudáveis”

Um dos dados conhecidos dos estudos é que de uma redução de 3% no
consumo de tabaco resulta, em 2030, uma redução anual de 152 casos
de cancro do pulmão, 45 de doença coronária, 27 de doença pulmonar
obstrutiva crónica e 50 enfartes de miocárdio. Prevê-se também que
ocorram menos 78 casos fatais decorrentes destas doenças ou situações
clínicas. Quanto à poupança, estima-se que, nestas circunstâncias se
situe nos 7,5 milhões de euros. Num plano mais ambicioso, foi feita uma
projecção com uma redução de 15% no consumo anual de tabaco. O
decréscimo anual de casos de cancro do pulmão rondaria os 765 casos,
menos 226 casos de doença coronária, 872 de doença pulmonar
obstrutiva crónica e 245 enfartes a menos. Neste contexto, estima-se
que em 2030 seja possível evitar cerca de 400 mortes decorrentes
destas doenças, provocadas, na maioria, pelo consumo de cigarros.

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