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Ano 5 - Nº 72 - Quinzenal - 30 de Abril de 2004

  Vidas

Dr. José Diogo

«Julguei que não saía do Ruanda vivo»

Consultor de Clínica Geral, com 45 anos de idade, licenciado em Coimbra em 82 e a exercer no Centro de Saúde das Caldas da Rainha desde 1983, o Dr. José Diogo é um dos homens que percorre o mundo amenizando a dor e o sofrimento daqueles que por motivos escusos, mas não escuros, atiram para a desgraça povos inocentes, vítimas da ganância e de poderes obsoletos que mais não fazem do que proteger a indústria armamentista. Depois de ser reconhecido como «curandeiro», surgiu o médico ou mais concretamente a Medicina Ocidental


Medi.com . Quando é que começou esta aventura de fazer missões no estrangeiro?

Dr. José Diogo . Eu comecei em 1991, na Guiné-Bissau, alguns meses depois da guerra do Golfo. Foi a minha grande experiência com África, perto de Medina do Boé, onde era o único médico na área, o que me custou uma responsabilidade acrescida. Foi a primeira missão da AMI, tínhamos um hospital feito de tabancas onde toda a gente acorria, muitos até vindos da Guiné-Conakri. Eu como clínico geral tinha algumas apreensões, nomeadamente em patologias do foro cirúrgico, complicações da gravidez, parto e puerpério, mas correu tudo lindamente durante esses três meses. Foi muito curioso porque naqueles sítios foi chegar e começar a fazer, tive de ser reconhecido pelo comité da tabanca como capaz de emprestar uma mais valia e assim a partir do momento em que tive a filha do curandeiro para consultar é que me senti feito, isto é, reconhecido oficialmente como médico e uma pessoa prestável. E quando saí, deixei lá grandes amigos, alguns que me consideraram como irmão, nomeadamente por causa das patologias que combatemos, as epidemias de cólera. Tive alguns casos, uns mais complicados que outros, mas tive sobretudo um caso de um homem mordido por uma cobra que veio a correr para o hospital e eu tinha lá outro homem que chegara na véspera também mordido por uma cobra e que tinha trazido a cobra. E, então, quando o outro viu a cobra dentro de um frasco, começou a apontar e a gritar que era aquela.
O homem que tinha chegado vinha quase em prega grega, enquanto o outro da véspera estava sereno, pois como sabe eles fazem um garrote excepcional e como iniciámos precocemente o tratamento não chegou a ter as consequências que o outro tinha, de modo que o recém chegado ficou a considerar-me um deus ou coisa assim.

Curandeiro

M.com . Melhor que o curandeiro lá do sítio.

Dr. J.D. . Exactamente. Ali, como deve compreender, vinha gente de todo o sítio, apareciam homens grandes que vinham porque alguém lhes tinha dito que eu estava ali. A realidade da Guiné é assim: juntam-se quarenta homens para levar um doente ao médico, num percurso de cinquenta quilómetros.

M.com . O que é que o faz correr para tratar doentes nessas missões, quando também tem doentes aqui, e é responsável por uma lista de doentes, que ficam sem médico durante esses meses de missão?

Dr. J.D. . Tem de haver uma autorização da ARS. Depois eu sou um cidadão do mundo e tenho a minha maneira de viver isso. Fundamentalmente é assim: eu sempre tive muita admiração pelos Médicos Sem Fronteiras e sabendo o que se passa por aí é fácil adivinhar que em determinados pontos do mundo existem situações em que milhares ou milhões de pessoas estão necessitados de forma é radical, sem meios de subsistência a nível alimentar, quer a nível higieno-sanitário, logístico, etc., e eu sinto necessidade de conhecer novas realidades, essencialmente de ser prestável na minha área. E quando as circunstâncias me proporcionaram eu fui. Já lá vão treze anos.

Fuga para a frente

M.com . Na fase após a morte da sua mulher. Não terá sido um lenitivo, uma fuga para a frente essa sua «aventura»?

Dr. J.D. . Pode eventualmente ter constituído também um factor decisivo, pois foi uma situação complicada apesar de nessa altura nós estarmos em fase de separação, mas foi complicado para mim porque ela suicidou-se.

M.com . Porquê as missões da AMI, porque não com um outro tipo de organização, por exemplo a OMS, muito mais bem pagas e sobretudo com maior segurança?

Dr. J.D. . A AMI fez uma ONG portuguesa e foi por aí.

M.com . Onde é que já esteve?

Dr. J.D. . Cronologicamente estive na Guiné-Bissau, no mesmo ano fui passar o Natal a Moçambique, depois Angola, Zaire, Ruanda em 1996, nas Honduras em 1998, tive as malas feitas para ir para o Paquistão mas essa missão não aconteceu, voltei a estar na Guiné e no ano passado na Jordânia.

O inferno do Ruanda

M.com . O que mais o marcou positiva e negativamente?

Dr. J.D. . Logo na primeira missão na Guiné, quando cheguei duas das empregadas da missão estavam grávidas em fim de tempo e, então, fui eu que assisti os partos. Uma delas,
Mariana, que era mulher do enfermeiro, estava sempre a dizer-me que eu assistia os partos na tabanca, mas quando fosse o dela seria no hospital. Mas assim não aconteceu, o enfermeiro vai uma noite chamar-me, que a mulher estava aflita em casa e quando eu chego ela estava em período expulsivo e eu fechei a porta da tabanca, com uma lanterna a alumiar fiz o parto. O miúdo vinha com duas circulares que eu laqueei, e pronto. Eu venho-me embora e um dia recebo uma carta do enfermeiro a dizer que a mulher estava bem e também o seu filho João. Pela negativa, no Ruanda, onde havia uma situação muito complicada, milhares de pessoas sem água, sem abrigo, sem comida, atingidas pala maior epidemia de cólera que houve na segunda metade do século XX, quando saímos do aeroporto e começámos a ver os cadáveres na beira da estrada julguei que não sairia dali vivo. Fazíamos a nossa estatística pelo número de mortos que encontrávamos ao longo do caminho até ao campo de refugiados. Nós chegámos numa altura em que tinham limpo as cidades e levado as populações para os campos de refugiados, e a necessidade de lenha era tal que tinham queimado todas as árvores. Eu nunca tinha visto uma cidade sem árvores. Penso que por ter estado naquela circunstância estou apto a viver em qualquer outra como aquela ou pior.

M.com . Diz-me que está apto a enfrentar seja que situação for. Isto quer dizer que está pronto para partir a todo o momento para outra missão?

Dr. J.D. . Se houver necessidade lá estarei.

Não ao mercantilismo

M.com . Isto significa que curso de Medicina para si deu-lhe algo mais que estar bem instalado?

Dr. J.D. . Aconteceram-me muito mais coisas seguramente do que se tivesse ficado por aqui. Nunca tive da Medicina uma perspectiva mercantilista. Obviamente que todos temos ambições e objectivos mas, como deve compreender, quem vai neste tipo de missões tem oportunidade de preencher outro tipo de objectivos que não sejam a poupança, um bom carro, a montagem da casa, até nem tenho uma boa casa.

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